A anestesia é parte essencial da prática odontopediátrica, pois proporciona um ambiente confortável e sem dor para os pacientes durante os procedimentos, mas poucas coisas geram mais ansiedade no atendimento infantil do que o momento da anestesia.

Não é apenas a técnica. É o cálculo da dose. É o peso da criança. É o medo da toxicidade. É a dúvida sobre qual sal anestésico escolher. É a preocupação com a duração do efeito e o risco de mordedura pós-operatória. A cena é comum: criança pequena, procedimento restaurador ou pulpar, responsáveis apreensivos, e o profissional fazendo a conta mental da dose máxima enquanto tenta manter a tranquilidade.

E é justamente aqui que muitos colegas experientes ainda relatam insegurança: Qual é a melhor escolha para dentes decíduos? A articaína pode ser usada em bloqueio? Qual a dose realmente segura? Vasoconstrictor sempre? E nos bêbes?

O problema é que, quando não temos clareza farmacológica, tendemos a decidir por hábito, não por evidência. E anestesia em criança não pode ser baseada em costume. Precisa ser baseada em previsibilidade.

Hoje vamos organizar o raciocínio clínico sobre anestésicos locais na odontopediatria de forma prática, objetiva e baseada no que realmente importa: segurança e controle de dor.

O conceito-chave aqui é simples: em odontopediatria, dose é mais importante do que escolha da marca. Crianças têm menor massa corporal, maior taxa metabólica e maior risco relativo de toxicidade sistêmica se houver erro de cálculo. A margem de segurança é menor.

Existem diferentes tipos de anestésicos disponíveis, cada um com suas próprias características e indicações específicas.

Anestésicos Locais: Os anestésicos locais são a base da anestesia odontológica e funcionam bloqueando a condução dos impulsos nervosos na área aplicada. Lidocaína e a mepivacaína são os mais comuns em odontopediatria devido à sua eficácia e perfil de segurança. São utilizados para procedimentos como exodontias, restaurações e tratamento endodôntico em crianças. A dosagem deve ser cuidadosamente calculada, de acordo com o peso do paciente.

Anestésicos Tópicos: Os anestésicos tópicos são aplicados na superfície mucosa antes da injeção de anestésico local para reduzir o desconforto da picada da agulha. A dose utilizada deve ser considerada no cálculo da dose máxima permitida.

Anestesia Geral: Em casos de procedimentos complexos, cirurgias extensas ou em pacientes muito jovens ou ansiosos, a anestesia geral podem ser considerada. Isso envolve a administração de medicamentos que induzem o estado de inconsciência temporária e permitem a realização dos procedimentos de forma segura e sem dor. É indicada em casos de tratamento de pacientes muito jovens, com necessidades especiais ou que tenham dificuldades em cooperar durante os procedimentos odontológicos.

Iremos nos aprofundar aqui no uso dos anestésicos locais.

Os Anestésicos Locais mais utilizados em odontopediatria são a lidocaína e a mepivacaína. Ambos são escolhas populares devido à sua eficácia, tempo de ação e perfil de segurança estabelecido em crianças.

 

Tipos de anestésicos:

  • Lidocaína:

A lidocaína é um anestésico local amplamente empregado na prática odontopediátrica. Pertencente à classe das amidas, é conhecida pela sua eficácia e perfil de segurança. Possui início de ação rápido, normalmente em torno de 2 a 5 minutos após a administração, e uma duração de efeito que varia de 60 a 120 minutos, dependendo da formulação e concentração utilizada. A lidocaína é metabolizada principalmente no fígado e excretada pelos rins. Eles vêm combinados com vasoconstritores, como a epinefrina. Isso pode prolongar a ação do anestésico e reduzir o risco de toxicidade sistêmica. No entanto, deve-se ter cautela em pacientes com condições cardíacas graves. Em crianças, é importante calcular a dose correta com base no peso corporal, considerando também o estado de saúde do paciente e quaisquer condições médicas preexistentes.

  • Mepivacaína:

A mepivacaína é outra opção comum na odontopediatria. Pertence à mesma classe da lidocaína (amida) e é apreciada por sua menor toxicidade em relação a outros anestésicos locais. Possui características semelhantes à lidocaína em termos de início de ação e duração. Ela atua bloqueando os canais de sódio nos nervos, interrompendo a condução dos impulsos nervosos e produzindo uma área de anestesia localizada. A mepivacaína é metabolizada no fígado, e os produtos de metabolização são excretados pelos rins. Portanto, é importante avaliar a função hepática e renal da criança antes de administrar a mepivacaína. É importante notar que a mepivacaína também está disponível  na opção sem vasoconstritor, o que pode ser uma vantagem em pacientes com sensibilidades ou alergias a esses agentes. Assim como com qualquer anestésico local, é essencial calcular a dosagem apropriada de mepivacaína com base no peso corporal da criança. É importante considerar a idade, o estado de saúde e quaisquer condições médicas pré-existentes ao determinar a dose. Durante a administração de mepivacaína, é crucial monitorar constantemente os sinais vitais do paciente e estar preparado para intervir em caso de qualquer sinal de reação adversa. A mepivacaína deve ser evitada em crianças com histórico de alergia ou sensibilidade conhecida a esse anestésico local específico. Além disso, precauções especiais podem ser necessárias em casos de doenças hepáticas ou renais graves.

 

Outros anestésicos a se considerar são:

  • Prilocaína:

A prilocaína é outro anestésico local usado em odontopediatria. Ela é metabolizada no fígado e tem duração de ação comparável à lidocaína. No entanto, é importante estar ciente de que a prilocaína contém um metabólito chamado orto-toluidina, que pode causar metemoglobinemia em doses elevadas ou em pacientes suscetíveis.

  • Bupivacaína (em casos específicos):

Embora menos comum em crianças, a bupivacaína pode ser considerada em situações onde é necessária uma anestesia de longa duração. Ela possui uma ação mais prolongada, o que pode ser benéfico em procedimentos mais extensos ou complexos. No entanto, deve ser usada com muita cautela devido à sua potencial toxicidade. De maneira geral, é contraindicada até 12 anos de idade.

Considerações Especiais para Crianças:

Dosagem Apropriada: É imperativo calcular a dosagem correta, levando em conta o peso e idade do paciente. As crianças têm uma taxa de metabolismo mais alta e, portanto, podem requerer doses maiores por quilo de peso corporal. A Tabela abaixo sugere os valores máximos permitidos (Tabela 1), MAS o profissional deve procurar utilizar doses mínimas necessárias para alcançar o efeito anestésico desejado. Esta tabela tem como referência o peso médio por idade. O ideal é calcular individualmente a dose máxima individualmente. Anestesia não é apenas controle de dor, é controle de risco. E o profissional que domina risco trabalha com tranquilidade.

O risco de toxicidade está relacionado à dose total administrada (mg/kg), não diretamente ao número de tubetes administrados. (Figuras 2 e 3) É aqui que muitos erros acontecem. A recomendação de dose máxima varia conforme o sal anestésico, mas o raciocínio clínico deve ser:

  1. Calcular pelo peso real da criança.

  2. Converter mg/kg em volume seguro.

  3. Planejar o procedimento dentro dessa margem.

E mais importante: a maioria dos procedimentos restauradores em odontopediatria não exige bloqueios extensos quando a infiltração é bem indicada.

 

Técnica Adequada: A técnica de administração deve ser cuidadosa e delicada para minimizar o desconforto e a ansiedade da criança. Uma introdução suave da agulha e uma injeção lenta são essenciais.

 

Monitoramento Contínuo: Durante a administração do anestésico local, é crucial monitorar constantemente os sinais vitais do paciente, como frequência cardíaca e respiratória, para garantir a segurança.

Considerações Finais:

É fundamental que os profissionais de odontopediatria tenham um entendimento abrangente dos diferentes tipos de medicamentos anestésicos disponíveis, bem como de suas indicações e dosagens apropriadas para cada faixa etária.

Além disso, a segurança do paciente deve ser sempre a principal prioridade, e o monitoramento constante durante a administração de anestesia é crucial para garantir um ambiente odontológico seguro e confortável para as crianças.

A  escolha do anestésico local na odontopediatria deve ser individualizada, levando em conta as características do paciente, a natureza do procedimento e qualquer sensibilidade conhecida.

Uma abordagem cuidadosa e bem informada garantirá a segurança e o conforto das crianças durante os tratamentos odontológicos.

 

Figura 1: Dose máxima anestésico tópico +  local

 

Figura 2: Dose máxima de anestésicos

Figura 3: Fórmula para cálculo de anestésico

 

 

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