A área da odontologia que lida com os indivíduos na fase da adolescência é denominada odontohebiatria. A adolescência é considerada um período crítico para se determinar os futuros hábitos das pessoas. Assim, a adoção de comportamentos saudáveis durante este período é uma grande oportunidade para uma boa qualidade de saúde bucal na idade adulta.
Nesta fase, é comum os pacientes enfrentarem desafios relacionados a hábitos bucais, como o uso irregular do fio dental, escovação inadequada e, em alguns casos, o início de hábitos prejudiciais, como tabagismo ou consumo excessivo de bebidas açucaradas. Educar e conscientizar os pacientes sobre a importância dos hábitos saudáveis é fundamental.
Durante a adolescência, os pacientes ainda estão experimentando o desenvolvimento craniofacial e a erupção de seus dentes permanentes. Monitorar cuidadosamente essas mudanças é essencial para garantir uma oclusão adequada e prevenir possíveis complicações ortodônticas.
Além disso, a busca pela estética torna-se mais proeminente na adolescência. Muitos pacientes podem expressar interesse em tratamentos ortodônticos para corrigir problemas estéticos ou funcionais. Avaliar a necessidade e a viabilidade desses tratamentos é crucial para fornecer uma abordagem personalizada e eficaz.
Cuidados Especiais
- Compreensão Psicológica:
- A adolescência é uma fase sensível do desenvolvimento, onde as preocupações estéticas e sociais podem influenciar a autoestima dos pacientes. Abordar essas preocupações com empatia e compreensão é essencial para estabelecer uma relação de confiança.
- Educação e Prevenção:
- Dedicar tempo à educação dos adolescentes sobre a importância da higiene bucal e a prevenção de problemas é uma ferramenta poderosa. Incentivar a responsabilidade individual na manutenção da saúde bucal é fundamental para promover hábitos duradouros.
- Abordagem Interdisciplinar:
- Trabalhar em colaboração com outros profissionais de saúde, como ortodontistas, psicólogos e médicos, pode ser crucial para oferecer um cuidado abrangente e holístico aos adolescentes. Compreender o contexto geral de saúde e bem-estar do paciente é essencial.
A mudança de comportamentos nesta faixa etária é desafiadora e muitas vezes não obtemos sucesso com as intervenções utilizadas. As chances de sucesso aumentam se você utilizar estratégias que envolvam:
Diálogo Aberto: Estabelecer uma comunicação franca e aberta é crucial. Incentive os adolescentes a compartilharem suas preocupações e desafios relacionados à saúde bucal, criando um ambiente propício para orientação e aconselhamento.
Educação Visual: Utilize recursos visuais, como gráficos ou demonstrações, para ilustrar os efeitos dos hábitos prejudiciais. Mostre de forma tangível como as escolhas diárias impactam a saúde bucal, tornando o aprendizado mais eficaz.
Envolvimento dos Responsáveis: Conscientize os pais sobre a importância de apoiar e monitorar os hábitos bucais de seus filhos adolescentes. O envolvimento familiar é crucial para criar uma cultura de cuidados bucais dentro do lar.
Programas de Prevenção: Desenvolva programas educacionais específicos para adolescentes, abordando temas como alimentação saudável, riscos do tabagismo e impacto dos hábitos na saúde bucal e geral. Palestras em escolas ou materiais informativos podem ser ferramentas eficazes.

Entrevista Motivacional (EM)
As evidências científicas mostram que a técnica de Entrevista Motivacional (EM) é uma das estratégias que tem trazido resultados positivos. Esta abordagem centrada no paciente tem se destacado como uma ferramenta valiosa em nossa prática, revelando impactos significativos na adoção de comportamentos saudáveis por parte dos pacientes, especialmente no contexto da saúde bucal. Algumas considerações importantes sobre a aplicação da técnica:
- Fortalecimento da Aliança Terapêutica: A EM, fundamentada na empatia e colaboração, fortalece a relação entre profissional e paciente. Ao envolver os pacientes de maneira ativa na definição de metas e estratégias, cria-se uma aliança terapêutica que favorece a aceitação e implementação das recomendações em saúde bucal.
- Identificação de Motivações Intrínsecas: A técnica de EM destaca-se por explorar as motivações intrínsecas dos pacientes. Compreender suas aspirações, valores e objetivos específicos em relação à saúde oral permite uma personalização eficaz das intervenções, aumentando a probabilidade de aderência às recomendações.
- Redução da Resistência à Mudança: Ao invés de impor orientações de maneira autoritária, a EM busca diminuir a resistência à mudança, reconhecendo as barreiras individuais e colaborando na identificação de estratégias realistas. Isso tem se mostrado eficaz, especialmente em adolescentes, grupo frequentemente resistente a conselhos tradicionais.
- Melhoria da Autoeficácia e Autoconfiança: A abordagem motivacional enfatiza o fortalecimento da autoeficácia e autoconfiança dos pacientes em relação à adoção de comportamentos saudáveis. Ao reconhecer pequenos sucessos e progressos, os pacientes se sentem capacitados e mais propensos a manter hábitos positivos a longo prazo.
- Sustentabilidade dos Hábitos Adquiridos: Observamos que as mudanças promovidas pela técnica de EM tendem a ser mais sustentáveis. Ao invés de correções momentâneas, os pacientes desenvolvem uma compreensão mais profunda das implicações de seus hábitos, promovendo uma mudança de mindset que transcende a consulta odontológica.
- Aplicabilidade em Diferentes Grupos Populacionais: A flexibilidade da EM a torna aplicável em diversos grupos populacionais, desde crianças até idosos. A técnica pode ser adaptada para atender às necessidades específicas de cada faixa etária, garantindo sua eficácia em diferentes contextos clínicos.
A Entrevista Motivacional (EM), desenvolvida por William R. Miller e Stephen Rollnick, não é uma sequência rígida de passos, mas um processo estruturado em quatro etapas fundamentais, que podem (e devem) ser adaptadas à maturidade emocional do adolescente.
Etapas aplicadas especificamente ao contexto clínico odontopediátrico:
1. Engajar (Engaging)
É a construção do vínculo. Sem aliança terapêutica, não há mudança. Com adolescentes, isso significa: reduzir o tom professoral, evitar julgamentos, demonstrar interesse genuíno pela rotina, escola, esportes, estética, vida social e validar sentimentos (“Entendo que usar fio dental pode parecer chato mesmo”). Nesta fase, o objetivo não é corrigir comportamento, é criar conexão. Devemos utilizar perguntas abertas, afirmações e escuta reflexiva.
2. Focar (Focusing)
Após o vínculo, direcionamos a conversa para um comportamento específico, como higiene deficiente com aparelho ortodôntico, consumo frequente de bebidas açucaradas, falta de uso de fio dental ou presença de lesões de mancha branca
Pergunta-chave:
“Entre tudo que conversamos, o que você acha que seria mais importante melhorar agora?”
O adolescente participa da definição do foco. Quando ele escolhe, a resistência diminui.
3. Evocar (Evoking)
Essa é a etapa central da Entrevista Motivacional.
Aqui buscamos o chamado “discurso de mudança”, quando o próprio adolescente verbaliza motivos para mudar.
Exemplos de perguntas evocativas: “O que te preocupa nessa gengiva sangrando?”, “Como você acha que isso pode impactar seu sorriso daqui a alguns anos?”, “O que mudaria na sua rotina se sua boca estivesse mais saudável?”
Em vez de convencer, fazemos o paciente refletir e, assim, trabalhamos:
-
Importância (De 0 a 10, o quanto isso é importante para você?)
-
Confiança (O quanto você acredita que conseguiria mudar?)
Quanto mais o adolescente argumenta a favor da mudança, maior a probabilidade de ação.
4. Planejar (Planning)
Só planejamos quando percebemos prontidão. O compromisso é dele e não deve ser imposto.
Pergunta-chave:
“O que você acha que conseguiria fazer essa semana?”
O plano deve ser específico, pequeno, realista e definido pelo próprio adolescente
Exemplo:
Em vez de “vou melhorar a escovação”, ele define:
“Vou usar fio dental pelo menos três vezes esta semana antes de dormir.”
O que a literatura mostra sobre os resultados?
Estudos indicam que a entrevista motivacional em odontologia está associada a melhora da frequência de escovação e redução de sangramento gengival; maior adesão ao uso do fio dental; redução de lesões iniciais de cárie; melhor adesão em pacientes ortodônticos e, principalmente, maior autonomia do adolescente.
Considerações finais
Em nossa prática como odontopediatra, a abordagem aos adolescentes exige sensibilidade, habilidades clínicas refinadas e um compromisso com a educação contínua. Ao reconhecer as particularidades desta fase da vida e abordar os hábitos bucais na adolescência de maneira proativa e personalizada, podemos não apenas fornecer tratamentos eficazes, mas também desempenhar um papel fundamental no estabelecimento de hábitos saudáveis que perdurarão ao longo da vida adulta.
Referências:
Lassemo E, Rodd HD, Skeie MS, Johnsen JK, Nermo H, Sand K, Eftedal RK, Fagerhaug TN, Jasbi A, Marshman Z, Dahllöf G, Høiseth M. Dental professionals’ views on motivational interviewing for the prevention of dental caries with adolescents in central Norway. BMC Oral Health. 2023 Nov 20;23(1):889. doi: 10.1186/s12903-023-03649-w. PMID: 37986160; PMCID: PMC10662639.
Wu L, Lo ECM, McGrath C, Wong MCM, Ho SMY, Gao X. Motivational interviewing for caries prevention in adolescents: a randomized controlled trial. Clin Oral Investig. 2022 Jan;26(1):585-594. doi: 10.1007/s00784-021-04037-w. Epub 2021 Jul 13. PMID: 34254214.
Watt SB, Marshman Z. Can motivational interviewing help prevent dental caries in secondary school children? Evid Based Dent. 2022 Jun;23(2):56-57. doi: 10.1038/s41432-022-0261-z. Epub 2022 Jun 24. PMID: 35750726.
Wu L, Gao X, Lo ECM, Ho SMY, McGrath C, Wong MCM. Motivational Interviewing to Promote Oral Health in Adolescents. J Adolesc Health. 2017 Sep;61(3):378-384. doi: 10.1016/j.jadohealth.2017.03.010. Epub 2017 May 19. PMID: 28532895.
Faça a diferença na saúde bucal das crianças!
Participe de nossas atividades e cursos online
