Dentistas, vocês têm percebido que é cada vez mais frequente nos depararmos com crianças que apresentam comportamento disruptivo, ansiedade elevada e dificuldade de cooperação durante o atendimento odontológico. Embora múltiplos fatores estejam envolvidos, evidências recentes reforçam um aspecto que merece nossa atenção clínica: o estilo parental, especialmente a superproteção.

Um estudo transversal conduzido nos Países Baixos (Geuns  et al., 2025) com crianças de cinco a seis anos demonstrou que níveis mais elevados de parentalidade superprotetora estiveram significativamente associados a comportamentos mais disruptivos durante o tratamento odontológico. Em termos práticos, quanto maior o grau de superproteção, maior a dificuldade da criança em lidar com situações odontológicas potencialmente estressantes.

A superproteção parental caracteriza-se pelo desejo excessivo de poupar a criança de frustrações, desconfortos e desafios. Embora bem-intencionada, essa postura pode limitar o desenvolvimento da autonomia, da autorregulação emocional e da capacidade de enfrentamento: habilidades essenciais para o comportamento cooperativo no consultório.

Além do impacto direto no comportamento durante o atendimento, o estudo também apontou associações relevantes com o cuidado em saúde bucal no ambiente domiciliar. Pais superprotetores relataram mais dificuldades durante a escovação, menor frequência de reescovação pelos responsáveis e menor autoeficácia parental frente à resistência da criança. Esses achados ajudam a explicar, ao menos em parte, o maior índice de cárie observado nessas crianças, ainda que essa associação perca força após ajustes estatísticos.

Do ponto de vista clínico, estes resultados reforçam que o comportamento infantil não pode ser analisado isoladamente. A antecipação excessiva do medo da criança e a dificuldade em permitir que ela enfrente pequenas frustrações podem amplificar reações negativas durante o atendimento odontológico.

Cabe ao odontopediatra, portanto, não apenas aplicar técnicas de manejo comportamental à criança, mas também acolher, orientar e educar os pais. Estratégias que promovam a autonomia infantil, o fortalecimento da autoconfiança e o alinhamento das expectativas parentais são fundamentais para um atendimento mais harmonioso e eficaz.

Reconhecer a influência do estilo parental é um passo essencial para transformar experiências odontológicas negativas em vivências positivas, promovendo saúde bucal, bem-estar emocional e relações mais equilibradas entre pais, filhos e profissionais.

 

Referência bibliográfica: (texto enviado por email)

Geuns E, de Jong-Lenters M, Duijster D. Associations between overprotective parenting and children’s cooperation during dental treatment, toothbrushing behaviour and dental caries experience. Eur J Paediatr Dent. 2025 Dec 7;26(4):272-279. doi: 10.23804/ejpd.2025.2296. PMID: 41020532.

 

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