Quem atende odontopediatria sabe que o tratamento endodôntico em dentes decíduos com polpa necrosada nunca é uma decisão simples e, menos ainda, quando chegamos à escolha do material obturador.

Na clínica, esse é um daqueles momentos em que a insegurança aparece: usar o material que você aprendeu na graduação? Seguir o que o colega usa? Apostar no que parece “mais moderno”? O problema é que, diferente de várias outras áreas da odontopediatria, aqui não temos uma resposta única e definitiva.

Os canais de dentes decíduos trazem desafios próprios: anatomia complexa, infecção polimicrobiana, reabsorção fisiológica em andamento e a necessidade de um material que acompanhe esse processo sem causar danos ao sucessor permanente.

E, no meio disso tudo, a expectativa clínica é clara: controlar infecção, evitar falhas e manter o dente em função com previsibilidade.

Mas será que existe um material que realmente entrega isso melhor do que os outros? Ou será que estamos buscando uma resposta simples para um problema que é, essencialmente, multifatorial?

É exatamente isso que a evidência mais recente nos ajuda a enxergar e, principalmente, a interpretar com mais maturidade clínica.

 

O que a evidência nos mostra

Uma revisão sistemática com metanálise recente (Pedrotti et al, 2023)  avaliou diferentes materiais obturadores em dentes decíduos necrosados: óxido de zinco (ZO), hidróxido de cálcio (CaOH), pastas com iodofórmio (IOD) e a combinações entre eles .O primeiro ponto importante observado, e talvez o mais desconfortável, é este:

não existe evidência científica robusta que comprove a superioridade de um material sobre outro.

Quando analisamos os dados disponíveis, nenhum material se destaca de forma consistente como “o melhor”. (Tabela 1)  Ainda assim, algumas tendências aparecem:

As pastas à base de iodofórmio mostraram maior probabilidade de menor falha clínica, possivelmente pela sua ação antimicrobiana mais efetiva em infecções anaeróbias típicas de dentes necrosados .

Já o hidróxido de cálcio apresentou maior probabilidade de pior desempenho, especialmente quando associado a veículos aquosos, favorecendo reabsorção precoce.

O óxido de zinco, tradicionalmente utilizado, apresentou maior chance de falha em comparação ao iodofórmio em análises diretas, além de limitações clínicas importantes como baixa reabsorção e potencial interferência no sucessor.

Mas talvez o dado mais relevante não esteja na comparação entre materiais, está no pano de fundo:

o sucesso do tratamento não depende apenas do que você coloca no canal,  mas do que você faz antes disso.

 

Tabela 1: Diferentes materiais obturadores – pulpectomia de dentes decíduos

Critério clínico Óxido de Zinco (ZO/ZOE) Iodofórmio (IOD / associações) Hidróxido de Cálcio (CaOH)
Evidência de sucesso clínico Resultados variáveis; maior chance de falha vs IOD em comparação direta Maior probabilidade de menor taxa de falha (≈81% ranking) Maior probabilidade de pior desempenho clínico
Ação antimicrobiana Moderada Alta, especialmente contra anaeróbios Boa, mas dependente do veículo
Comportamento biológico Baixa reabsorção quando extravasado Reabsorção favorável quando extravasado Alta reabsorção (especialmente com veículo aquoso)
Relação com reabsorção fisiológica Pode não acompanhar → risco de retenção de material Geralmente acompanha melhor o processo fisiológico Pode reabsorver rápido demais → canal “vazio” precocemente
Impacto no sucessor permanente Pode interferir na erupção e causar alterações Menor risco biológico Baixo risco direto, mas dependente da estabilidade do tratamento
Citotoxicidade / irritação Maior potencial irritativo Melhor biocompatibilidade relativa Boa biocompatibilidade
Estabilidade no canal Alta (permanece por mais tempo) Intermediária Baixa em algumas formulações
Dependência da técnica Alta (falhas associadas a extravasamento e controle infeccioso) Alta, mas com vantagem antimicrobiana Alta, com limitação de duração do efeito
Principal limitação clínica Não reabsorver adequadamente e possível impacto no sucessor Não há superioridade definitiva comprovada Reabsorção precoce e menor previsibilidade
Melhor cenário clínico (interpretação prática) Casos com boa desinfecção e controle técnico rigoroso Casos com maior carga infecciosa Casos selecionados, com cautela quanto à durabilidade

 

O que isso muda na prática

Se não existe um “melhor material”, então a decisão clínica não pode ser simplificada. Ela precisa ser estratégica, porque o material obturador não é o protagonista do tratamento.

O protagonista é a desinfecção do sistema de canais.

E isso começa antes da obturação. A evidência mostra que dentes decíduos necrosados apresentam uma infecção polimicrobiana complexa, com predominância de anaeróbios e alta resistência . E essa infecção não é eliminada passivamente por um material, ela precisa ser reduzida.

Na prática, isso depende de três pilares:

A instrumentação reduz a carga bacteriana, mas nunca atinge toda a complexidade anatômica.

A irrigação contribui, mas sua eficácia está mais relacionada à forma de uso do que ao tipo de solução.

E, em muitos casos, o tempo biológico, com ou sem medicação intracanal, ainda é negligenciado.

Isso muda completamente a lógica clínica. Você deixa de perguntar “qual material usar?” e passa a perguntar:

“Este canal está realmente pronto para ser obturado?”

Porque o material não esteriliza o canal, ele apenas mantém um ambiente desfavorável à reinfecção. Se o controle da infecção for insuficiente, ele não compensa.

 

E quando dizem que não precisa “limpar” o canal?

Nos últimos anos, surgiram abordagens que propõem o tratamento de dentes decíduos necrosados sem instrumentação dos canais. A ideia central é controlar a infecção quimicamente, sem removê-la mecanicamente.

Isso reduz tempo clínico e facilita o manejo, o que, na odontopediatria, é extremamente relevante.

Mas exige uma leitura clínica mais cuidadosa, porque essa filosofia não elimina o problema da infecção. Ela muda a estratégia: em vez de remover + reduzir, propõe modular + conter.

E isso parte de um conceito válido: nem sempre é necessário eliminar completamente os microrganismos para obter sucesso clínico.

Mas aqui está o ponto crítico:

A ausência de sintoma não é sinônimo de resolução da infecção.

Quando não há instrumentação, permanecem no sistema: tecido necrótico, biofilme organizado
e endotoxinas bacterianas. Sabemos que esses fatores estão diretamente associados à manutenção da inflamação .

Então o sucesso dessas abordagens depende de um equilíbrio delicado: reduzir a atividade bacteriana sem necessariamente eliminá-la. Isso pode funcionar, principalmente em situações específicas, mas não com a mesma previsibilidade em todos os casos e , agora uma opinião pessoal, eu a usaria apenas em situações de grande dificuldade clínica, como em alguns pacientes neurodivergentes ou outras necessidades especiais que dificultem a execução da técnica convencional.

Aqui está o erro mais comum: interpretar essa técnica como substituição da endodontia convencional. Ela não substitui. Ela amplia o repertório e exige muito critério.

 

O que muda na sua decisão clínica

Você não escolhe mais apenas o material. Você escolhe a estratégia: casos mais complexos, com maior carga infecciosa ou lesão ativa, exigem maior controle biológico; casos com limitações comportamentais  ou clínicas severas poderiam justificar abordagens mais conservadoras.

Mas em todos eles, o raciocínio é o mesmo: o material não compensa uma desinfecção insuficiente.

Erros comuns que a evidência ajuda a evitar: supervalorizar o material, subestimar a infecção, trocar de pasta sem mudar a estratégia e ignorar o selamento coronário.

 

Olhar de professora

Existe um momento na formação clínica em que o dentista deixa de buscar respostas absolutas e começa a construir raciocínio.

Esse tema marca esse momento, porque ele desmonta uma expectativa muito comum: a de que sempre existe uma escolha ideal.

Na odontopediatria, especialmente na endodontia de dentes decíduos, o que existe em algumas situações, é gestão de variáveis. Material é uma delas, mas não é a principal.

A introdução de técnicas não instrumentadas reforça isso, não simplifica. Ela exige ainda mais critério, porque trabalhar com menos intervenção não significa trabalhar com menos responsabilidade biológica.

Se eu tivesse que resumir em uma frase clínica:

O sucesso da pulpectomia em dentes decíduos não está apenas no material escolhido, mas na coerência entre diagnóstico, estratégia e execução.

 

Se essa leitura mudou a forma como você enxerga a escolha do material, ela já cumpriu seu papel.

 

profa. Ana Lidia Ciamponi

CEO Sapere Dental Edu

 

Referências (Vancouver)

  1. Pedrotti D, Bottezini PA, Casagrande L, Braga MM, Lenzi TL. Root canal filling materials for endodontic treatment of necrotic primary teeth: a network meta-analysis. Eur Arch Paediatr Dent. 2023;24:151–166. 
  2. Coll JA, Vargas K, Marghalani AA, et al. A systematic review and meta-analysis of nonvital pulp therapy for primary teeth. Pediatr Dent. 2020;42(4):256–461.
  3. Smail-Faugeron V, Glenny AM, Courson F, et al. Pulp treatment for extensive decay in primary teeth. Cochrane Database Syst Rev. 2018;5:CD003220.
  4. Najjar RS, Alamoudi NM, El-Housseiny AA, et al. Calcium hydroxide/iodoform vs zinc oxide eugenol in primary teeth pulpectomy: systematic review and meta-analysis. Clin Exp Dent Res. 2019;5(3):294–310.

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