O TEA – Transtorno do Espectro Autista é definido como um conjunto de desordens do neurodesenvolvimento caracterizado por limitações persistentes da comunicação e interação social, associado a comportamentos estereotipados, restritivos e repetitivos. Esses sintomas ocorrem precocemente no desenvolvimento da criança e provocam limitações funcionais. (American Psychiatric Association, 2013). O diagnóstico precoce é essencial para o estabelecimento de terapias educacionais e comportamentais e se necessária, farmacológica.
Etiologia
- 20-25%: anormalidades genéticas e cromossômicas (gene CNTNAP2, mutações de novo, defeitos mitocondriais)
- 75-80% influência genética multifatorial, onde a vulnerabilidade genética interage com influências ambientais para alterar o circuito neuronal.
Comorbidades
- Deficiência intelectual (+/-70%)
- TDAH
- Transtorno de ansiedade, depressão, distúrbio desafiador oposição, transtorno obsessivo compulsivo,
- Epilepsia (5-46%): severidade dos sintomas do TEA estão associados à anormalidades no EEG ( que ocorrem mais na região temporal).


Tratamentos
As terapias comportamentais e educacionais ( ex: ABA- Análise Aplicada de Comportamento e PECS – Picture Exchange Communication System) são as intervenções de primeira linha. A farmacoterapia é um complemento para aumentar a eficácia destas intervenções.
As crianças com TEA apresentam maior risco para o desenvolvimento da doença cárie, pior condição periodontal, alterações no microbioma oral e maior risco de injúrias traumáticas nos dentes, não pela patologia em si, mas sim pela dificuldade dos cuidadores em estabelecer rotinas adequadas de cuidados orais.
Fatores como escolhas alimentares precárias, comportamentos e aversões específicas, incapacidade de autocuidado, auto injúria, uso de drogas com efeitos secundários contribuem para a condição.
Abordagem comportamental em odontologia
O TEA é uma condição com expressividade variável, o que demanda estratégias de intervenção individualizadas durante o tratamento odontológico. A colaboração para a realização de procedimentos médicos costuma ser precária, principalmente aqueles procedimentos invasivos, como o é a odontologia.
As técnicas de abordagem comportamental não farmacológicas são indicadas, mas o médico dentista deve estar ciente que a mudança de comportamento demandará mais tempo que a observado para a média das crianças. Mas tudo bem, tenha mais paciência e entenda que as crianças com TEA precisam de mais tempo para processar toda a informação que estás a transmitir a ela!
Caso seja muito difícil para a criança, podemos recorrer a técnicas farmacológicas, como sedação e anestesia geral.
- Técnicas não farmacológicas
Comunicação através de imagens (ex:PECS- picture exchange communication system)
ABA (análise aplicada de comportamento)
Falar-mostrar-fazer
Dessensibilização
Reforço positivo
Distração (música, desenhos, segurar brinquedo….)
Estórias sociais ( livros = pedagogia visual)
Técnicas sensoriais (evitar ruído, diminuir campo de visão periférica, hipersensibilidade à sabores e sensações, atenção a isto!)
Imobilização médica ( a depender do Consentimento Livre e Esclarecido dos responsáveis)
- Técnicas farmacológicas
Sedação
Anestesia geral
Recomendações para a prática clinica:
- Pré-consulta apenas com os responsáveis: mostrar consultório, auxiliar os pais a preparar a criança para a visita, identificar preferência das crianças para utilizar como gatilhos positivos durante a consulta e entregar um pequeno caderno/livro (ou mesmo utilizar aplicativos para este fim), com fotos do dentista, consultório, instrumentos,… manipulação bucal, para a criança começar a se familiarizar visualmente com estes procedimentos.
- Consultas:
-Rotina de atendimento é importante. Procure realizar consultas curtas, objetivas, marcadas no mesmo horário e mesmo ambiente.
-Eliminação/redução de estímulos sensoriais estresantes, como som alto, luz direta do refletor, odores desagradáveis, muito movimento.
-Utilize imagens, figuras, quer seja para orientar quanto às rotinas do consultório, como para as rotinas de cuidados caseiros.
-A abordagem comportamental deve ser individualizada, de acordo com o grau de comprometimento. Sempre utilize reforçadores positivos, técnica do falar-mostrar-fazer e de tempo para a criança assimilar aquilo que está a ser transmitido e criar vínculo com o profissional. Procure conhecer o que “encanta” a criança, que poderá ser utilizado para conquistar sua atenção. Portanto, lançar mão de objetos, personagens, músicas suaves ou filmes que a criança goste para distraí-la.
Referências:
- Corridore D, Zumbo G, Corvino I, Guaragna M, Bossù M, Polimeni A, Vozza I. Prevalence of oral disease and treatment types proposed to children affected by Autistic Spectrum Disorder in Pediatric Dentistry: a Systematic Review. Clin Ter. 2020 May-Jun;171(3):e275-e282. doi: 10.7417/CT.2020.2226. PMID: 32323718.
- Ferrazzano GF, Salerno C, Bravaccio C, Ingenito A, Sangianantoni G, Cantile T. Autism spectrum disorders and oral health status: review of the literature. Eur J Paediatr Dent. 2020 Mar;21(1):9-12. doi: 10.23804/ejpd.2020.21.01.02. PMID: 32183521.
- Gyawali S, Patra BN. Autism spectrum disorder: Trends in research exploring etiopathogenesis. Psychiatry Clin Neurosci. 2019 Aug;73(8):466-475. doi: 10.1111/pcn.12860. Epub 2019 Jun 5. PMID: 31077508.
