Fendas lábio palatinas
As fendas lábio palatinas estão entre as condições craniofaciais congênitas mais comuns. Sua prevalência é de aproximadamente 0,3:1000 nascidos vivos. (Salari el al. 2021)
Sua ocorrência tem impacto significativo em nível individual e na sociedade, quer seja em termos econômicos, efeitos psicológicos, transtornos na alimentação e fala, bem como no crescimento das crianças. Isto exige a atuação transdisciplinar, como enfermeiros, médicos, médicos dentistas, terapeutas da fala (fonoaudiólogos), dentre outros.
A formação das estruturas faciais se relacionam com uma série de eventos complexos que necessitam da coordenação da migração celular, crescimento, diferenciação e apoptose, e quando tais eventos não se desenvolvem de forma harmoniosa, temos o surgimento das fendas labiais e/ou palatinas. Tais distúrbios se desenvolvem entre a 4a e 8a semanas de vida intrauterina e seu dignóstico normalmente é realizado por volta da 28a semana de vida intrauterina.
As fendas lábio palatinas podem ser classificadas de diversas formas. Apresentamos a classificação que tem como base o forame interincisivo. Podem ser distribuídas em fré-forame (unilateral incompleta ou completa, e bilateral incompleta ou completa), transforame e pós-forame. (Figura 1)

Figura 1 : Classificação de Spina et al, 1972
As fendas podem ou não estar relacionadas à síndromes genéticas. Aproximadamente 200 síndromes apresentam como sinal a presença de fendas. Quando não são de origem genética, estão relacionadas à fatores ambientais, como estilo de vida materno (fumo e álcool), déficits de vitaminas e minerais (ex: zinco e folatos) ou uso de alguns medicamentos teratógenos (ex: derivados retinóicos, alguns anticonvulsivantes).
Assim, a prevenção primária se baseia na identificação e controle dos fatores de risco descritos, para que exista menor probabilidade de ocorrência.
Um dos principais desafios observados quando da presença de fendas labiais e/ou palatinas, já desde o nascimento, está relacionado com a alimentação. É comum observarmos menor habilidade para o aleitamento materno, maior tempo para alimentação, cólicas e vômitos decorrentes do aprisionamento de ar durante a amamentação, bem como refluxo nasal, ulcerações na mucosa oral e otitis media, o que impõe uma série de complicações para a saúde imediata da criança e seu crescimento pondero estatural.
Para contornar a situação, alguns profissionais lançam mão do uso de placas obturadoras. As evidências científicas demonstram que seu uso não é superior em termos de benefícios para o aleitamento ou para o crescimento infantil, além do custo envolvido com o procedimento, particularmente se falarmos em saúde pública.
O uso de mamadeiras especiais, seringas, copinhos e oferta do leite em colheres também são métodos propostos para contornar a situação. Mas a intervenção mais efetiva para o estabelecimento do aleitamento materno efetivo e consequente melhor crescimento infantil é a introdução de programas de educação para gestantes e mães, com o objetivo de orientá-las quanto aos cuidados e variáveis nas técnicas de amamentação.
Protocolos de Tratamento
Os protocolos de tratamento variam, a depender do local e extensão da fenda. As técnicas cirúrgicas têm por objetivo restaurar as funções orais e melhorar a estética.
Cronologia de eventos durante o tratamento, tendo como base a idade da criança:
3-4meses: queiloplastia
1 ano: palatoplastia (tempo único); início tratamento com terapeuta da fala
+/- 5 anos: início tratamento ortopédico/ortodôntico
7-9 anos: enxerto ósseo alveolar
16-18 anos: cirurgia ortognática ou distração osteogênica
> 18 anos: rinoplastia

Figura 3: Algumas possibilidades de tratamento ortopédico (imagens cedidas pela dra. Aline Inocêncio)
Referências:
Penny C, McGuire C, Bezuhly M. A Systematic Review of Feeding Interventions for Infants with Cleft Palate. Cleft Palate Craniofac J. 2021 Oct 29:10556656211051216. doi: 10.1177/10556656211051216. Epub ahead of print. PMID: 34714161.
Salari N, Darvishi N, Heydari M, Bokaee S, Darvishi F, Mohammadi M. Global prevalence of cleft palate, cleft lip and cleft palate and lip: A comprehensive systematic review and meta-analysis. J Stomatol Oral Maxillofac Surg. 2022 Apr;123(2):110-120. doi: 10.1016/j.jormas.2021.05.008. Epub 2021 May 24. PMID: 34033944.
