A estomatite é um termo genérico utilizado para descrever inflamações que acometem a mucosa oral. Ela é uma das condições mais frequentes na infância, e é de extrema importância que saibamos identificar, diferenciar e tratar as diversas formas de estomatites encontradas em nossos pacientes mirins.
Etiologia e Tipos de Estomatites
As estomatites podem ser causadas por diversos fatores, como vírus, bactérias, fungos, alergias, deficiências imunológicas, má higiene oral e estresse emocional.
Neste contexto, destacam-se algumas das estomatites mais comuns em crianças:
– Estomatite Aftosa Recorrente (EAR): É a forma mais frequente de estomatite na infância. Caracteriza-se por úlceras aftosas pequenas, rasas, de bordas bem definidas e rodeadas por uma área avermelhada. Podem ser únicas ou múltiplas, causando dor e desconforto na criança. Etiologia desconhecida e não há tratamento que produza remissão completa de novos episódios.

Fig.1 : Estomatite aftosa
– Herpangina: Causada pelo vírus Coxsackie, é caracterizada pelo surgimento de úlceras pequenas na região da garganta, amígdalas e úvula, que ao estourarem deixam manchas esbranquiçadas. A criança apresenta febre repentina, dor de garganta e mal-estar. Os sintomas podem durar até 10-12 dias.
– Estomatite por Candidíase: Causada pelo fungo Candida albicans, é comum em bebês e pode ocorrer em crianças imunossuprimidas. Apresenta-se como placas esbranquiçadas na mucosa oral, que podem ser removidas, deixando uma área avermelhada e dolorosa.
– Estomatite Vesicular: Causada por diferentes vírus, como o Herpes Simplex, pode resultar em vesículas dolorosas na boca, língua e lábios. Essas vesículas podem se romper, formando úlceras. A gengivoestomatite herpética primária apresenta uma fase prodrômica de 2-4 dias, associada à perda de apetite, febre, dores de cabeça e linfadenopatia cervical, prévia à ocorrência da inflamação gengival generalizada e ulcerações. É uma infecção autolimitante que se resolve entre 10-14 dias. Recomenda-se o uso de aciclovir oral já na fase prodrômica.

Figura 2: Estomatite herpética
– Síndrome da febre periódica, estomatite aftosa, faringite e adenite (PFAPA): é uma síndrome autoinflamatória, de etiologia ainda incerta e possivelmente multifatorial e base genética. É uma doença autolimitada e de curso benigno, que costuma se manifestar até os 5 anos de idade, mas com episódios recorrentes na adolescência e fase adulta, em alguns indivíduos. A hipovitaminose D, o hábito materno de fumar e crianças que não receberam aleitamento materno são considerados fatores de risco para a doença. Os sintomas perduram por 2-8 dias, a cada episódio, e recorrem após 2 a 12 semanas. As crianças apresentam episódios recorrentes de febre, algumas vezes acompanhadas de estomatite aftosa (50% dos casos), faringite (90% dos casos) e/ou adenite (93% dos casos), ausência de infecção do trato respiratório superior, náusea e fadiga, e de etiologia incerta. O tratamento médico se baseia no uso de corticoides, colchicina e, possível, tonsilectomia. Quando esta última é realizada, ocorre a remissão completa da condição. Na ausência da cirurgia, ocorre remissão espontânea completa dos sintomas após 2-3 anos, sem comprometimento do crescimento pondero-estatural da criança.
Existem outras formas dessa condição que podem acometer tanto crianças como adultos. Abaixo estão alguns outros tipos de estomatites relevantes para o conhecimento do odontopediatra:
Estomatite Angular (Queilite angular): Caracteriza-se por fissuras ou feridas que se formam nos cantos da boca. Pode ser causada por fatores como umidade excessiva, má higiene oral, deficiências nutricionais e infecções fúngicas.

Fig. 3: Queilite angular
Estomatite Medicamentosa: Alguns medicamentos podem causar reações alérgicas ou irritações na mucosa oral, levando ao desenvolvimento de estomatite. A presença de lesões na boca após a introdução de um novo medicamento pode sugerir essa condição.
Estomatite Subprótese/aparelho: Ocorre em pacientes que utilizam próteses e aparelhos dentários mal ajustadas ou que não são higienizadas corretamente. A pressão e a fricção na mucosa oral podem causar irritação e inflamação localizada.
Estomatite por Radiação: Pacientes que se submetem a tratamentos de radioterapia na região da cabeça e pescoço podem desenvolver estomatite como efeito colateral da terapia. As mucosas da boca são sensíveis à radiação, e as lesões podem variar de leves a graves.
Diagnóstico e Tratamento
O diagnóstico correto é essencial para o tratamento adequado das estomatites. Ele é realizado através da anamnese detalhada, exame clínico minucioso e, em alguns casos, a realização de exames complementares.
O tratamento varia conforme o tipo e a gravidade da estomatite, mas em geral, inclui o alívio dos sintomas:
– Analgésicos e antitérmicos podem ser prescritos para aliviar a dor e a febre.
– Hidratação e nutrição adequadas: É fundamental garantir que a criança esteja bem hidratada e que receba uma dieta nutritiva e balanceada.
– Medidas locais: Enxaguantes bucais suaves ou géis contendo analgésicos podem ser utilizados para aliviar a dor local.
– Antifúngicos e antivirais: Em casos específicos, como estomatites causadas por Candida ou vírus Herpes, medicamentos específicos podem ser prescritos.
– Orientações aos pais: É importante fornecer instruções claras aos pais ou responsáveis sobre como cuidar da criança durante o período de doença.
Prevenção
Embora nem sempre seja possível evitar a ocorrência de estomatites, algumas medidas preventivas podem ser adotadas:
– Higiene oral adequada: Estimular a escovação dos dentes, língua e gengivas, conforme a idade da criança.
– Alimentação saudável: Uma dieta equilibrada rica em nutrientes ajuda a fortalecer o sistema imunológico.
– Evitar compartilhamento de objetos: Incentivar que a criança não compartilhe copos, talheres e objetos de uso pessoal com outras pessoas.
É fundamental ter conhecimentos sólidos sobre as estomatites comuns em crianças para que possamos fornecer o melhor cuidado odontopediátrico. Compreender suas causas, sintomas, diagnóstico e tratamento nos permite oferecer alívio aos pequenos pacientes e tranquilidade aos pais. Lembrem-se sempre da importância de uma abordagem carinhosa e empática, pois a odontopediatria é também uma área onde o afeto e a confiança têm um papel significativo no tratamento das crianças.!
É importante destacar que o diagnóstico e o tratamento de qualquer tipo de estomatite devem ser realizados por profissionais de saúde, como dentistas ou médicos, com experiência no tratamento de doenças da cavidade oral. Cada tipo de estomatite pode requerer abordagens específicas de tratamento, e uma avaliação adequada é essencial para determinar a causa subjacente e administrar a terapia adequada.
Referências e reccomendações de leitura:
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