E de repente chega em seu consultório um paciente com hábito de sucção de dedo ou chupeta ….. O QUE FAZER? Como nortear suas condutas, em termos de orientações, para a remoção deste hábitos tão deletérios para o desenvolvimento da oclusão e crescimento das estruturas faciais?
Sabemos que tais hábitos ainda são um dos principais problemas bucais entre os pacientes infantis, particularmente na primeira infância, e conhecemos as inúmeras complicações associadas à eles. Apesar do trabalho intenso por parte dos odontopediatras em tentar reduzir sua prevalência, ainda são muitas as crianças que fazem uso de chupeta ou sucção de dedo. Seu abandono requer compreensão, paciência e criatividade.
Primeiramente, devemos conhecer as razões subjacentes ao hábito, para abordá-las de forma eficaz. E transmitir aos pais e responsáveis o impacto que os mesmos têm, não apenas na dentição e no crescimento facial, mas em todas as esferas da saúde infantil, de tal forma a criar uma parceria com eles para aumentar as chances de sucesso.
A abordagem empática também desempenha papel fundamental. Ao invés de repreender, devemos educar e envolver as crianças nas decisões sobre sua própria saúde bucal. Podemos lançar mão de recursos visuais, como histórias e ilustrações, para explicar os efeitos negativos a longo prazo. E estabelecer metas atingíveis, recompensas e sistemas de incentivo para motivar as crianças a superarem esses hábitos. A abordagem precisa ser estratégica, individualizada e baseada em diagnóstico comportamental e funcional.
Assim, apresentamos aqui alguns passos que você poderá utilizar e que certamente farão “A” diferença nos resultados!
Passo 1. Construir Conexões
Primeiro, compreendam o motivo por trás do hábito. Está relacionado ao conforto, ansiedade ou tédio? Conversem tanto com os pais quanto com a criança para obterem insights valiosos. Isso vai muito além de uma anamnese básica. Vocês precisam identificar gatilhos do hábito: ele ocorre ao dormir? em momentos de frustração? durante o uso de telas? Existe associação com desmame precoce ou ausência de autorregulação emocional? Aqui, o erro clássico é tratar todos os pacientes com a mesma orientação. Não façam isso. Uma criança que suga o dedo por ansiedade precisa de uma abordagem completamente diferente daquela que mantém o hábito por condicionamento ao sono.
Passo 2. Educação Compassiva
Em vez de assustar, eduquem. Ilustrem como esses hábitos podem afetar o crescimento dos dentes e do complexo maxilo-mandibular usando imagens e exemplos simples. Transformem essa educação em uma jornada compartilhada com os pais. A comunicação deve ser técnica para os pais e lúdica para a criança. Para os responsáveis, sejam claros: expliquem a relação com mordida aberta anterior, atresia maxilar, interposição lingual e alterações miofuncionais. Mas cuidado: não utilizem o medo como ferramenta. O objetivo é gerar consciência e adesão, não culpa. Já com a criança, traduzam isso em linguagem simbólica: “o dedinho está empurrando seus dentinhos para frente”
Passo 3. Empoderamento da Criança
Envolvam a criança no processo de mudança. Expliquem o porquê por trás da necessidade de abandonar esses hábitos e deixem-na fazer parte da solução. Definam metas juntos. É onde muitos profissionais falham. A criança precisa deixar de ser passiva no processo. Trabalhem com contratos comportamentais simples, definição de metas semanais e acompanhamento visual (quadros, adesivos). Isso ativa motivação intrínseca. Crianças acima de 3–4 anos já conseguem participar ativamente, e isso muda completamente o prognóstico.
Passo 4. Criatividade Lúdica
Utilizem a imaginação para combater o hábito. Proponham um plano que inclua atividades divertidas e recompensas quando a criança atingir os marcos definidos. Vocês podem substituir o hábito, não apenas eliminá-lo. Sugiram alternativas sensoriais e comportamentais: objetos de transição, técnicas de relaxamento adaptadas, histórias terapêuticas. Em casos de sucção digital, estratégias como cobertura do dedo (com micropore, dedeiras) podem funcionar, mas apenas se houver aceitação da criança, como se fosse um lembrete. Sem isso, vira punição disfarçada.
Passo 5. Modelagem Positiva
Mostrem exemplos de outras crianças que superaram esses hábitos com sucesso. Às vezes, a identificação com os pares pode ser uma força motriz poderosa. Crianças aprendem por identificação. Relatos de “outras crianças que conseguiram”, personagens ou até irmãos mais velhos funcionam muito bem. Isso reduz resistência e cria um senso de capacidade: “se ele conseguiu, eu também consigo”.
Passo 6. Apoio Contínuo
Mantenham contato regular com os pais e paciente para monitorar o progresso e oferecer orientação. Pequenos retrocessos são normais, e é importante não desistir. A remoção do hábito não acontece em uma consulta. Exige acompanhamento, reforço positivo e ajustes de estratégia. Retornos curtos (15–30 dias) são ideais. E aqui entra algo essencial: orientar os pais a não punirem recaídas. Recaída não é falha, é apenas parte integrante do processo de extinção comportamental.
Passo 7. Celebre Vitórias
Cada dia sem o hábito é um passo para um sorriso mais saudável. Celebrem cada conquista, por menor que seja, para manter a motivação em alta. A celebração de vitórias, não é um detalhe, é uma ferramenta terapêutica. O reforço positivo consolida o novo comportamento. Pequenas conquistas devem ser valorizadas: uma noite sem chupeta, menos tempo de sucção, maior consciência do hábito. Isso fortalece a autoestima da criança e sustenta a adesão.
Passo 8. Caso a Caso
Lembrem-se de que cada criança é única. Adaptem suas estratégias com base na personalidade e nas necessidades de cada paciente. Portanto, sejam guias gentis nessa jornada. Com paixão, conhecimento e paciência, você poderá impactar vidas de maneira duradoura. Vamos construir juntos esses alicerces ?

E eu acrescento algo fundamental para vocês levarem para a prática: o momento da intervenção importa. Antes dos 3 anos, a abordagem tende a ser mais orientativa. Após essa idade, especialmente com sinais clínicos de má oclusão já presentes, vocês devem ser mais ativos. E, em alguns casos, será necessário associar dispositivos ortodônticos e/ou ortopédicos (ex: aparelhos com grades palatinas), mas sempre associados com abordagem comportamental.
Se vocês compreenderem isso profundamente, deixam de ser profissionais que “tentam tirar chupeta” e passam a ser clínicos que modificam trajetórias de crescimento e desenvolvimento.
Clique aqui para baixar um infográfico sobre exame da oclusão decídua
Faça a diferença na saúde bucal das crianças!
Participe de nossas atividades e cursos online
