A endodontia, mais especificamente, a pulpectomia, quando realizada em dentes decíduos é, talvez, um dos procedimentos que mais expõem a complexidade clínica da odontopediatria. Não apenas pela anatomia peculiar desses dentes, como canais finos, achatados, muitas vezes curvos e com reabsorção fisiológica em andamento, mas também pelo contexto em que o tratamento acontece: estamos lidando com uma criança , o que algumas vezes significa tempo de cadeira limitado.

A cooperação do paciente pode ser variável, mas a expectativa familiar é sempre elevada! Portanto, é um procedimento que exige precisão técnica.

Nesse cenário, a introdução dos sistemas rotatórios para instrumentação de canais em dentes decíduos despertou grande interesse na última década. A promessa parecia clara: instrumentação mais rápida, padronização da técnica, maior qualidade de preparo e menor desgaste para o operador. Mas a pergunta mais importante não é se o método é mais moderno. A pergunta relevante é outra:

“Isso realmente melhora o resultado clínico do tratamento?”

Nos últimos anos, várias revisões sistemáticas e meta-análises começaram a comparar diretamente a instrumentação rotatória com a técnica manual tradicional em pulpectomias de dentes decíduos. E quando olhamos para o conjunto dessas evidências, uma mensagem bastante consistente começa a aparecer. O uso de instrumentos rotatórios traz algumas vantagens claras, mas talvez não exatamente aquelas que muitos profissionais imaginam.

Hoje vamos olhar para a literatura com foco no que realmente importa para a tomada de decisão clínica.

 

O que a evidência nos mostra

Entre 2020 e 2025, diversas revisões sistemáticas e meta-análises analisaram ensaios clínicos comparando instrumentação rotatória e manual em pulpectomia de dentes decíduos. Apesar das diferenças metodológicas entre os estudos, como sistemas utilizados, protocolos de irrigação, materiais obturadores e experiência dos operadores, os resultados mostram um padrão bastante consistente:

 

  • O primeiro ponto de consenso é o tempo de instrumentação.

Praticamente todas as análises mostram que a instrumentação rotatória reduz significativamente o tempo necessário para o preparo dos canais radiculares.

Essa redução pode variar entre alguns minutos até cerca de metade do tempo clínico em comparação com a instrumentação manual. Em odontopediatria, essa diferença não é trivial. Menor tempo clínico significa maior probabilidade de manter a cooperação da criança e concluir o tratamento na mesma sessão.

 

  • Outro desfecho frequentemente avaliado é a qualidade da obturação.

Várias meta-análises identificaram uma tendência de melhor qualidade radiográfica das obturações quando o preparo foi realizado com sistemas rotatórios. Isso provavelmente ocorre porque a instrumentação mecanizada tende a produzir preparos mais uniformes e centrados no canal. Além disso, alguns estudos também mostram menor dor pós-operatória nas primeiras horas e dias após o tratamento quando sistemas rotatórios são utilizados.

A explicação mais provável está relacionada à menor extrusão de detritos e à instrumentação mais controlada.

 

No entanto, quando chegamos ao desfecho que realmente determina o sucesso clínico e radiográfico da endodontia, o cenário muda. As diferentes meta-análises convergem em um ponto importante:

Não há diferença significativa entre instrumentação rotatória e manual nas taxas de sucesso da pulpectomia em dentes decíduos. Em outras palavras, quando o objetivo é manter o dente assintomático e funcional até sua esfoliação fisiológica, as duas técnicas apresentam resultados semelhantes. Isso não significa que a tecnologia não tenha valor! Mas significa que a biologia do tratamento endodôntico continua sendo mais determinante do que o tipo de instrumento utilizado. O sucesso do tratamento depende, em grande parte, do correto diagnóstico.

 

O que isso muda na prática

Quando olhamos para estes resultados com foco na clínica diária, algumas interpretações importantes aparecem. Primeiro, é fundamental separar dois conceitos que muitas vezes se confundem na literatura: superioridade técnica e superioridade clínica.

A instrumentação rotatória parece oferecer vantagens operacionais claras.

O procedimento tende a ser mais rápido, mais padronizado e, em muitos casos, mais confortável tanto para o operador quanto para a criança. Isso pode ser particularmente relevante em situações como crianças pouco colaboradoras que exigem sessões clínicas curtas. Neste cenário, reduzir o tempo de instrumentação pode ser decisivo para a conclusão do tratamento.

Outro ponto relevante é a padronização da técnica. Sistemas rotatórios desenvolvidos para dentes decíduos foram projetados considerando a anatomia desses canais, o que pode facilitar o preparo para profissionais com menor experiência em endodontia.

Por outro lado, a evidência disponível também mostra algo importante:

o uso de sistemas rotatórios não aumenta a taxa de sucesso do tratamento. Isso significa que uma pulpectomia bem executada com técnica manual continua ser a um tratamento altamente eficaz quando bem conduzida. A limpeza química adequada, o controle da infecção intracanal, a irrigação eficiente e a obturação correta continuam sendo fatores importantes para o prognóstico. Em outras palavras, o instrumento não substitui a técnica. Portanto, os instrumentos rotatórios melhoraram a eficiência do procedimento, mas não corrige falhas decorrentes do diagnóstioco errado.

 

Olhar de professora

Existe algo interessante quando observamos a evolução das tecnologias em odontologia. Com frequência, a inovação chega primeiro associada à ideia de superioridade absoluta. É natural. Equipamentos novos, sistemas novos e técnicas novas geram entusiasmo, e também expectativa.

A literatura científica, quando amadurece, costuma trazer uma visão mais equilibrada. No caso da instrumentação rotatória em dentes decíduos, o que vemos hoje é exatamente isso. Os sistemas rotatórios são ferramentas úteis, pois podem tornar o procedimento mais rápido, mais previsível do ponto de vista técnico e, em muitos casos, mais confortável para a criança.

Entretanto, o sucesso da pulpectomia continua a depender de algo mais fundamental: executar um correto diagnóstico clínico. Ou seja: istrumentos ajudam, mas não substituem o julgamento clínico. Esta talvez seja uma das lições mais importantes da odontologia baseada em evidência.

 

Considerações finais

A instrumentação rotatória utilizada em pulpectomias de dentes decíduos é uma tecnologia que pode melhorar a eficiência clínica. A evidência atual mostra que seu principal benefício está na operacionalização do procedimento, e não necessariamente no aumento do sucesso do tratamento.

 

profa. Ana Lidia Ciamponi

 

 

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Referências:

  • Manchanda S, Sardana D, Yiu CKY. A systematic review and meta-analysis of rotary versus manual instrumentation for pulpectomy in primary teeth. Int Endod J. 2020;53(3):333–348.
  • Faghihian R, Momeni H, Faghihian H. Rotary versus manual instrumentation in primary teeth pulpectomy: a systematic review and meta-analysis. Contemp Clin Dent. 2022;13(1):1–9.
  • Gala M, Shah N, Patel H. Rotary versus manual instrumentation in primary teeth: systematic review and meta-analysis. Int J Clin Pediatr Dent. 2024;17(1):1–10.
  • Khadmi S, et al. Rotary versus manual instrumentation for pulpectomy in primary teeth: systematic review and meta-analysis. Eur Arch Paediatr Dent. 2025.
  • Padmawar N, et al. Rotary versus manual instrumentation in pulpectomy of primary teeth: systematic review and meta-analysis. Aust Endod J. 2025.

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