Quem atende crianças pequenas provavelmente já teve essa conversa inúmeras vezes no consultório.

Durante a anamnese, os pais dizem com naturalidade: “Ele usa chupeta… mas só para dormir.” Ou então: “Ela chupa o dedo desde bebê.”

Para a família, esses hábitos fazem parte da rotina de conforto da criança. Muitas vezes são vistos como algo temporário, que desaparecerá sozinho com o tempo. E de fato, a sucção não nutritiva é extremamente comum nos primeiros anos de vida. 

Mas existe um ponto importante que muitas vezes passa despercebido na prática clínica. A prevenção da instalação destes hábitos começa ainda durante a gestação. A orientação da gestante sobre o desenvolvimento oral do bebê e sobre os possíveis impactos dos hábitos de sucção não nutritiva permite que a família tome decisões mais conscientes desde o nascimento.

Por isso, integrar o odontopediatra às ações de educação em saúde no pré-natal pode ser uma estratégia extremamente relevante para a prevenção de hábitos de sucção prolongados e de suas possíveis repercussões oclusais.

Mas quando a família chega no consultório e o hábito já está instalado, Chupeta e sucção digital aparecem precocemente e costumam atingir seu pico de prevalência ainda no primeiro ano. Em muitas crianças, o hábito desaparece espontaneamente conforme o desenvolvimento avança. 

O problema surge quando esse comportamento se prolonga além do período em que as estruturas bucais conseguem se adaptar sem consequências estruturais.

Durante muito tempo, boa parte das recomendações clínicas sobre esses hábitos foi baseada mais em observação clínica do que em evidência robusta. 

Nos últimos anos, porém, estudos longitudinais e revisões sistemáticas começaram a trazer dados mais consistentes sobre essa relação. Hoje sabemos que não é apenas a presença do hábito que importa. O fator decisivo no desenvolvimento de más oclusões costuma ser a duração e a frequência da sucção. E compreender esse ponto muda completamente a forma como orientamos as famílias no consultório.

 

O que a evidência nos mostra

Os hábitos de sucção não nutritiva incluem principalmente chupeta e sucção digital. A prevalência pode chegar a mais de 80% nos primeiros meses de vida, diminuindo progressivamente com o crescimento.

O impacto sobre a oclusão depende principalmente de três fatores:

  • duração do hábito
  • frequência
  • intensidade da sucção 

Um ensaio clínico randomizado recente acompanhou crianças desde o nascimento até os 7 anos de idade para avaliar a relação entre hábitos de sucção e desenvolvimento oclusal. Os resultados mostraram que crianças que utilizaram chupeta por 12 meses ou mais apresentaram maior prevalência de mordida cruzada posterior aos 7 anos.

Quando o hábito foi interrompido antes de um ano, a prevalência de mordida cruzada foi cerca de 1%. Já quando persiste por mais de 12 meses, chegou a aproximadamente 7%. Ou seja, a duração do hábito aumenta significativamente o risco de alterações transversais da maxila.

Mas quando olhamos para a mordida aberta anterior, o efeito parece ser ainda mais expressivo.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2025 analisou 33 estudos envolvendo mais de 10 mil crianças e encontrou uma associação consistente entre hábitos de sucção não nutritiva e mordida aberta anterior. Os resultados são bastante claros:

  • Crianças com hábitos de sucção não nutritiva apresentaram risco significativamente maior de desenvolver mordida aberta anterior, com odds ratio aproximado de 8,7 quando comparadas às crianças sem o hábito.
  • Quando analisado especificamente o uso de chupeta, o risco foi ainda maior, chegando a OR ≈ 11 para desenvolvimento de mordida aberta anterior.
  • Já a sucção digital também mostrou associação importante, com OR ≈ 4,6.

Outro ponto interessante é que a frequência do hábito também importa:

  • Crianças que utilizavam chupeta diariamente apresentaram risco cerca de 10 vezes maior de desenvolver mordida aberta anterior em comparação com aquelas que não usavam diariamente.

Do ponto de vista biomecânico, isso ocorre porque o objeto interposto entre os incisivos altera o equilíbrio muscular e impede o contato vertical normal entre os dentes anteriores. Com o tempo, essa interferência pode modificar o padrão eruptivo e o desenvolvimento do arco dentário.

 

O que isso muda na prática

Na clínica diária, o desafio não é apenas identificar o hábito de sucção não nutritiva.

É definir o momento certo de intervir.

Durante muito tempo, muitos profissionais orientavam a retirada da chupeta apenas por volta dos três ou quatro anos. Hoje sabemos que o impacto oclusal pode começar bem antes.

A evidência atual sugere que o primeiro ano de vida é um marco importante. A partir desse momento, a persistência do hábito começa a aumentar o risco de alterações oclusais. Isso não significa que toda criança que usa chupeta desenvolverá má oclusão. Mas indica que quanto maior o tempo e a frequência do hábito, maior a probabilidade de alteração oclusal.

 

Na prática clínica, algumas condutas ajudam a reduzir esse risco:

  • Primeiro, orientar os pais desde cedo sobre a natureza transitória desses hábitos.
  • Segundo, estimular a redução progressiva da chupeta entre 12 e 24 meses.
  • Terceiro, observar com atenção hábitos digitais persistentes, que tendem a ser mais difíceis de interromper.

Também é importante lembrar que os hábitos de sucção não atuam isoladamente. Respiração oral, padrão muscular, postura lingual e fatores genéticos também influenciam o desenvolvimento da oclusão.

Ou seja, o hábito raramente é o único fator, mas muitas vezes funciona como gatilho para alterações em um sistema já suscetível.

 

Olhar de professora

Existe uma tendência natural de simplificar essa discussão. Ou a chupeta é vista como vilã absoluta. Ou como algo completamente inofensivo. Não iremos entrar aqui na questão da associação da sucção de chupeta com aleitamento materno. Este tema merece uma discussão adicional.

A melhor prevenção não começa na retirada do hábito, ela começa antes mesmo de ele ser introduzido. Sempre que possível, orientar as famílias a não introduzir a chupeta no arsenal de recursos utilizados para acalmar o bebê já representa uma estratégia preventiva importante. Quando o hábito não é introduzido, naturalmente elimina-se o risco associado à sua persistência.

Esta orientação deve ser feita de forma sensível e realista. Muitas famílias recorrem à chupeta por necessidade prática, especialmente em contextos de exaustão parental ou dificuldade de manejo do choro.

O que sabemos: apesar de indesejado, a maioria das crianças terá algum hábito de sucção não nutritiva no início da vida. O que transforma um comportamento em um fator etiológico para o desenvolvimento de más oclusões é o tempo de exposição.

Estas, talvez sejam as mensagens mais importantes para quem atende odontopediatria. Não precisamos esperar a má oclusão aparecer para agir. A intervenção mais efetiva acontece muito antes de qualquer aparelho. Ela começa na  educação da gestante e, posteriormente, prossegue na orientação simples que interrompe o hábito no momento certo do desenvolvimento. E é justamente nesse tipo de intervenção que a odontopediatria mostra sua maior potência clínica.

 

Na próxima vez que você perguntar sobre chupeta ou sucção digital durante a anamnese, tente ir além da resposta “usa ou não usa”.

Pergunte há quanto tempo.

Pergunte com que frequência.

Esses dois detalhes muitas vezes dizem mais sobre o futuro daquela oclusão.

 

profa Ana Lidia Ciamponi

CEO SAPERE Dental Education

 

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Referências

  1. Arpalahti I, Hänninen K, Tolvanen M, Varrela J, Rice DP. The effect of early childhood non-nutritive sucking behavior including pacifiers on malocclusion: a randomized controlled trial. Eur J Orthod. 2024. 
  2. Gao C, Wang M, He H, Lei H, Mei L. Association between non-nutritive sucking habits and anterior open bite: a systematic review and meta-analysis. BMC Oral Health. 2025. 
  3. Dogramaci EJ, Rossi-Fedele G. Establishing the association between nonnutritive sucking behavior and malocclusions: a systematic review and meta-analysis. J Am Dent Assoc. 2016. 
  4. Warren JJ, Bishara SE. Duration of nonnutritive sucking behaviors and their effects on the dental arches in the primary dentition. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2002. 

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