A cena é comum no consultório: a criança relata sensibilidade em um caso de HMI, você orienta, ajusta hábitos, indica dessensibilizante. Melhora, mas não resolve. Em algum momento, o LASER entra como opção. E, muitas vezes, funciona. Mas o incômodo não está nos acertos, está nas variações. Em um paciente, o alívio é imediato, em outro, discreto e em outro, inexistente…e você fica perdido sem saber onde errou.

Mas isso não se resolve apenas ajustando o protocolo de uso, porque o LASER não é, por si só, um tratamento. Ele é uma forma de interagir com o tecido e, quando isso não está claro, o resultado oscila. Quando está, a lógica muda e a previsibilidade também.

Quando um procedimento restaurador falha, você consegue rastrear o erro. Quando uma anestesia não pega, você ajusta a técnica. Mas com o LASER, muitas vezes, a sensação é de aleatoriedade. Só que não é aleatório: o que acontece é que o LASER não se comporta como um material ou um instrumento convencional.

Ele não “age” sozinho e, depende, de forma crítica, de como a energia está sendo entregue ao tecido. E é exatamente isso que a literatura mais recente reforça: LASER não é sobre equipamento, é sobre interação físico-biológica. Quando esse conceito não está claro, o resultado clínico vira tentativa.

O que a evidência nos mostra

Uma revisão atual (Safaee et al., 2025) propõe uma mudança importante: entender o LASER a partir da interação entre luz e tecido, e não como uma técnica isolada.

E essa interação é governada por variáveis físicas muito específicas.

A primeira delas é o comprimento de onda. Cada tecido bucal (esmalte, dentina, polpa e tec gengival) possui diferentes coeficientes de absorção. Isso significa que a mesma energia pode gerar efeitos completamente distintos dependendo do alvo.

Por exemplo, como descrito no artigo:

  • lasers Erbium têm alta absorção em água e hidroxiapatita → ideais para tecido duro

  • lasers de diodo interagem com pigmentos → mais indicados para tecido mole

  • CO₂ tem absorção superficial intensa → promove corte preciso com hemostasia

Isso define o que você está fazendo clinicamente.

A segunda variável crítica é a densidade de energia (energia por área). Segundo o artigo, essa variável determina se o efeito será:

  • biomodulador (baixa energia)

  • térmico controlado (coagulação)

  • ablativo (remoção tecidual)

Ou seja, o mesmo LASER pode gerar analgesia ou dano térmico, dependendo do ajuste. E aqui entra um dos pontos mais negligenciados na prática: como a potencia está distribuída no tecido.

Outro conceito central trazido pela revisão é o de difusividade térmica do tecido.

Tecidos diferentes dissipam calor de formas diferentes.

  • esmalte → baixa difusão → maior risco de concentração térmica

  • tecidos vascularizados → dissipam calor mais rápido

Isso significa que o risco clínico não está apenas no equipamento, mas também na combinação entre: tecido, energia e tempo de aplicação. E é exatamente essa tríade que define segurança e resultado.

O que isso muda na prática

Se você leva esses conceitos para o consultório, algumas decisões mudam imediatamente.

Primeiro: você para de escolher o LASER pelo nome e passa a escolher pelo efeito desejado. Isso muda completamente a indicação. Na hipersensibilidade dentinária, por exemplo: Você pode buscar:

  • modulação neural → baixa energia, efeito analgésico

  • selamento tubular → energia suficiente para alteração superficial

São estratégias diferentes e complementares, com parâmetros diferentes.

Segundo ponto: controle de energia passa a ser mais importante que o protocolo.

Seguir protocolo sem entender de energia é o caminho mais curto para inconsistência clínica. O artigo reforça que parâmetros como irradiância (W/cm²), tempo de pulso e modo de emissão (contínuo vs pulsado) são determinantes para o efeito final. E isso explica por que dois profissionais usando o “mesmo LASER” têm resultados diferentes.

Terceiro: O conceito de mínimo invasivo precisa ser bem entendido. LASER não é minimamente invasivo por definição. Ele é minimamente invasivo quando bem ajustado, caso contrário, pode gerar carbonização, dano térmico e necrose tecidual

E isso não é raro, só que é pouco discutido. Na odontopediatria, isso ganha ainda mais peso, porque a dentina é mais permeável, a câmara pulpar é mais próxima e o controle de tempo e movimento é mais desafiador. Ou seja: a margem de erro é menor.

Olhar de professora

Existe uma mudança importante quando o clínico amadurece no uso do LASER.

No início, ele pergunta: “Qual deles eu devo usar?” Depois, ele passa a perguntar:

“Qual efeito eu quero gerar nesse tecido?”

Essa mudança parece simples, mas ela separa o uso técnico do uso estratégico.

O LASER deixa de ser uma ferramenta “avançada” e passa a ser uma ferramenta controlável. E quando você controla a energia, o alvo e o tempo o resultado deixa de depender da sorte. Passa a depender de você.

Se o LASER ainda parece imprevisível na sua prática, talvez não seja falta de protocolo, seja a falta de “leitura” do fenômeno físico por trás da clínica.

beijinhos,🌼

profa. Ana Lidia Ciamponi

CEO SAPERE Dental Education

Referências

Safaee S, Moghanian A, Mehrdar M, et al. A comprehensive review on advancements in laser-assisted dental treatments: focus on minimally invasive techniques and clinical outcomes. Lasers Med Sci. 2025;40:382.

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