O contacto repetitivo de substâncias ácidas sobre a superfície dentária leva à perda mineral, tornando-a amolecida, o que provoca a perda desta estrutura por forças mecânicas. A este processo denominamos DESGASTE DENTAL EROSIVO.

Os dentes decíduos são mais vulneráveis à este tipo de desgaste, se comparado aos dentes permanentes. De acordo com a literatura, sua ocorrência varia entre 6-79%, com tendência a aumentar com o avanço da idade. A presença na dentição decídua é considerada fator de risco para que o processo ocorra na dentição permanente.

Os fatores etiológicos estão distribuídos em dois grandes grupos:

  • Extrínsecos: fatores nutricionais, com o consumo excessivo de bebidas ácidas, como refrigerantes, sucos e energéticos. O uso de drogas ou bebidas alcoólicas podem interferir na dentição permanente, já que crianças pequenas não se utilizam destas substâncias.
  • Intrínsecos: refluxo gastroesofágico e distúrbios alimentares. Um fator modulador do processo está associado à composição  da saliva e da película adquirida. As crianças apresentam menos cálcio e proteína na composição salivar, o que confere menor proteção. O esmalte decíduo também apresenta maior porcentagem de carbonato incorporado aos cristais, os prismas de esmalte são menores que nos dentes permanentes e também apresentam menor microdureza e elasticidade, fatores que podem impactar na solubilidade do esmalte.

A ação do flúor sobre o desgaste erosivo é bem menos evidente do que aquela observada na cárie dentária. Bochechos com soluções fluoretadas ou uso de dentifrício fluoretado conferem proteção limitada, já formulações com tetrafluoreto de titânio oferecem resultados superiores.

O diagnóstico precoce do desgaste dental erosivo é fundamental para evitarmos as sequelas da doença. Os primeiros sinais são difíceis de serem observados. A superfície se torna lisa, sem brilho, e eventualmente, áspera. O índice mais utilizado para classificação da erosão dental é o de O’Brien, que a classifica de acordo com a profundidade (E=esmalte, D=dentina, P=polpa) e área mais profunda afetada 1=até ⅓ afetada, 2= até ⅔, 3=toda área afetada) (Figura 1)

Figura 1: Classificação de O’Brien (*imagem cedida pelo prof. dr. Marcelo Bonecker)

Condutas profissionais:

  • Avaliação dos possíveis fatores de risco;
  • Diagnóstico clínico e acompanhamento da evolução ao longo do tempo;
  • Aconselhamento alimentar, com possível utilização do diário alimentar por 5 dias, caso seja decorrente de fatores nutricionais;
  • Tratamento do refluxo gastroesofágico, caso seja decorrente desta condição clínica;
  • Utilização de dentifrício fluoretado >1000 ppm flúor, de vernizes e géis com flúor, apesar do efeito protetor limitado;
  • Reabilitação das superfícies afetadas, quando indicado.

 

Lussi A, Buzalaf MAR, Duangthip D, Anttonen V, Ganss C, João-Souza SH, Baumann T, Carvalho TS. The use of fluoride for the prevention of dental erosion and erosive tooth wear in children and adolescents. Eur Arch Paediatr Dent. 2019 Dec;20(6):517-527. doi: 10.1007/s40368-019-00420-0. Epub 2019 Feb 14. PMID: 30762211.

 

autor: Ana Lidia Ciamponi

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