Seu paciente infantil tem halitose – mau hálito?

O que pode estar por trás dessa condição?

Se você acredita que crianças não tem mau hálito está enganado! A halitose afeta diferentes grupos etários.

Halitose é classificada como verdadeira, pseudohalitose ou halitofobia. A halitose verdadeira pode ser dividida em fisiológica e patológica. A halitose fisiológica acontece, por exemplo, quando você acorda com mau hálito, mas ao se alimentar o fluxo salivar se restabelece e esse mau hálito desaparece. Nos casos de pseudohalitose e hálitofobia a pessoa  tem a sensação de que tem halitose, mas na verdade não tem. Neste artigo, nos concetramos nas suas causas patológicas.

Etiologia

Aproximadamente  90% das vezes  a halitose está relacionada com problemas bucais, decorrentes da má higiene bucal, com acúmulo de biofilme,  alterações salivares, presença de cáries, restaurações mal adaptadas, infecções dentárias e  gengivite.

A principal causa da halitose é a decomposição de matéria orgânica por bactérias anaeróbias proteolíticas presentes na cavidade oral. O dorso da língua é um ambiente favorável para o acúmulo de bactérias, células epiteliais descamadas, leucócitos mortos e produtos do metabolismo microbiano, formando a conhecida saburra ou biofilme lingual.  Este, por sua vez acaba por produzir compostos sulfurosos voláteis , como o sulfito de hidrogênio e o dimetilsulfito, dentre outros, que influenciam na intensidade do mal hálito.

A  segunda principal causa de halitose em crianças são os problemas respiratórios, principalmente aqueles decorrentes de  infecções das amígdalas e adenoides.  Problemas  como  sinusite, bronquite, pneumonia e tuberculose também contribuem para a situação. A respiração bucal também é um fator de risco para o surgimento da halitose, já que ocorre alteração no padrão salivar, com evaporação da saliva.

Por último, poderíamos dizer que condições sistêmicas como a diabetes ou a presença de doenças hepáticas e renais contribuem para a halitose (pela redução da produção da bile e pelo aumento de amônia e uréia, respectivamente). O refluxo gastroesofágico também contribui para o surgimento de halitose, mas em uma percentagem muito pequena de crianças. Alguns tipos de câncer como o de boca, garganta, esôfago e pulmão também podem contribuir para o surgimento de halitose, pois favorecem o acúmulo de células mortas e bactérias na boca.

 

Diagnóstico

O diagnóstico da halitose  em crianças pode ser realizado através de 3 métodos primários de medidas: – testes organolépticos;  cromatografia a gás e monitoração de sulfetos.

O  teste  organoléptico é o padrão ouro de avaliação, e nada mais é  do que sentir o odor do ar exalado pelo paciente.  Após esta avaliação é dado um escore de zero a 5  para a intensidade do odor , sendo o zero  sem odor e 5 com odor muito intenso.

Para a realização deste exame o paciente deve evitar usar soluções orais ou consumir chicletes, comidas condimentadas e apimentadas nas 24 horas prévias ao exame e evitar se alimentar ou higienizar os dentes nas 6 horas prévias. O  dentista também não deve beber chá, café, suco de fruta  ou fumar e  usar cosméticos fortes previamente ao exame, com intuito de evitar que o odor fique mascarado.

Previamente ao exame deve ser realizada anamnese adequada onde, através de um questionário,  os pais  respondem perguntas relacionadas com a higiene da criança, padrão  alimentar, histórico médico, hábitos bucais.

 

 Tratamento

Em relação ao tratamento, este irá depender da causa relacionada à halitose.  De maneira geral, quando é de  origem bucal, devemos primeiramente incentivar a remoção mecânica do biofilme bucal, através da higienização da língua e dos dentes com o uso de escova, fio dental e limpador de língua. Não esqueça, a higiene da língua  sempre deve ser realizada após a higiene dental. As pesquisas mostram que há uma tendência da higiene realizada com limpadores linguais ser melhor que aquela realizada com a escova dental para a higiene lingual.

O uso de solução de clorexidina ou triclosan pode ser indicado, bem como alterações  na dieta visando evitar o consumo de  alimentos com odor muito forte ou o consumo de muito açúcar.

Posteriormente  devemos avaliar o estado das restaurações e, se estas se encontrarem com contornos inadequados, refazê-las  ou repará-las. Devemos avaliar a presença de lesões de cárie e  a necessidade de realizar tratamentos endodônticos e/ ou exodontias com o objetivo de eliminar focos de infecção.

A terapia fotodinâmica  é considerada  um método efetivo que contribui  para a redução da halitose. Já o uso de alguns medicamentos, no caso o metronidazol (antibiótico),  pode ser  indicado  caso o problema esteja relacionado à hipertrofias ou infecções de amigdalas e/ou adenoides.

Caso a halitose seja decorrente de problemas respiratórios e gastrointestinais ou de outra causa sistêmica é  ideal encaminhar  o paciente para os respectivos especialistas para que estes realizem  o diagnóstico  e tratamento adequados ao caso.

 

Referências

AlMadhi NA, Sulimany AM, Alzoman HA, Bawazir OA. Halitosis and Associated Risk Factors in Children: A Cross-sectional Study. J Contemp Dent Pract. 2021 Jan 1;22(1):51-55. PMID: 34002709.

Bawazir OA. Risk Factors, Diagnosis, and Management of Halitosis in Children: A Comprehensive Review. J Contemp Dent Pract. 2021 Aug 1;22(8):959-963. PMID: 34753852.

Choi HN, Cho YS, Koo JW. The Effect of Mechanical Tongue Cleaning on Oral Malodor and Tongue Coating. Int J Environ Res Public Health. 2021 Dec 23;19(1):108. doi: 10.3390/ijerph19010108. PMID: 35010368; PMCID: PMC8751028.

Li Y, Lee S, Stephens J, Zhang W, Suprono M, Mwatha A, Ward M, Mirza F. A Randomized Parallel Study to Assess the Effect of Three Tongue Cleaning Modalities on Oral Malodor. J Clin Dent. 2019 Mar;30(Spec No A):A30-38. PMID: 30964972.

Silva CR, Silva CC, Rodrigues R. Etiology of halitosis in pediatric dentistry. Arch Pediatr. 2022 Aug;29(6):467-474. doi: 10.1016/j.arcped.2022.05.009. Epub 2022 Jun 3. PMID: 35667997.

 

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