Hoje conversaremos sobre o impacto que a prematuridade traz para o desenvolvimento das estruturas orofaciais. A sobrevida cada vez maior de recém-nascidos prematuros representa um avanço inegável da neonatologia moderna. Entretanto, junto a esse progresso, surge um novo desafio para nós, cirurgiões-dentistas: compreender e manejar as repercussões orofaciais decorrentes da prematuridade.

 

 

A prematuridade é definida como o nascimento antes das 37 semanas de gestação. É um fenômeno com implicações profundas para o desenvolvimento craniofacial, tecidual e funcional do bebê. Além das conhecidas complicações sistêmicas, há impactos diretos e sutis sobre o desenvolvimento do esmalte e funções orais, que exigem a atenção dos odontopediatras.A cavidade oral do bebê prematuro é o reflexo de um desenvolvimento interrompido precocemente. A imaturidade sistêmica, associada às condições clínicas do nascimento e aos cuidados intensivos, interfere diretamente na formação dos tecidos mineralizados e no desenvolvimento funcional do sistema estomatognático.

A associação entre prematuridade e defeitos do desenvolvimento do esmalte dentário (DDE) é bem estabelecida na literatura. Crianças nascidas prematuras apresentam risco significativamente aumentado de DDE, especialmente hipoplasia e opacidades do esmalte, em comparação com crianças nascidas a termo.  Pesquisas demonstram que até 60% dos prematuros apresentam algum tipo de DDE, contra menos de 25% dos bebês a termo. O risco é ainda maior em prematuros extremos (<28 semanas) e em recém-nascidos com muito baixo peso (<1.500 g). Outros fatores como  idade gestacional reduzida, internação prolongada em UTI neonatal e intubação estão associados a maior risco de DDE.

Nos prematuros, diversos fatores atuam de forma concomitante:

  • Imaturidade metabólica e sistêmica (hipocalcemia, hipofosfatemia, acidose metabólica).

  • Desnutrição neonatal e suporte nutricional parenteral prolongado.

  • Hipóxia, sepse e uso de antibióticos durante a internação em UTI.

  • Procedimentos invasivos, como intubação orotraqueal e sondas orogástricas, que podem causar microtraumas e inflamação local.

Esses fatores resultam em defeitos quantitativos (hipoplasias) e qualitativos (opacidades difusas ou demarcadas), especialmente em incisivos superiores e molares decíduos, cujas coroas estão em formação no período perinatal.

Implicações clínicas dos DDE:

  • Superfícies irregulares e porosas → retenção de biofilme e maior risco de cárie precoce.

  • Comprometimento estético → impacto psicossocial e maior ansiedade parental.

  • Sensibilidade dentária aumentada → dificuldade de escovação e alimentação.

  • Maior suscetibilidade a fraturas do esmalte e falhas adesivas em restaurações.

Além disso, o DDE pode atuar como marcador clínico da história de vulnerabilidade perinatal, sendo um achado importante em anamnese e planejamento preventivo individualizado.

Já, estudos recentes mostram resultados heterogêneos quanto à associação entre prematuridade e HMI. Alguns deles demonstraram uma associação, enquanto outros não encontraram relação significativa, indicando que fatores como doenças maternas, complicações no parto, uso de medicamentos, doenças respiratórias e infecções na primeira infância também contribuem para o risco de MIH.  A qualidade das evidências é limitada por vieses metodológicos, inconsistências entre estudos e falta de ajuste para fatores de confusão.

 A American Academy of Pediatrics destaca que defeitos estruturais do esmalte, comuns em prematuros, aumentam o risco à cárie. Portanto, o acompanhamento odontológico desde o primeiro ano de vida e intervenções preventivas são essenciais para minimizar tais impactos na saúde bucal.

Além dos DDE, há relatos que mostram um retardo na cronologia de erupção dentária, entretanto, quando a idade cronológica da criança é corrigida, descontando-se o tempo de prematuridade, esta característica desaparece.

O bebê prematuro também apresenta maior incidência de dificuldades de mastigação, deglutição e alterações sensoriais orais nos primeiros meses de vida, que podem persistir na infância, impactando a alimentação e o desenvolvimento funcional da cavidade bucal. Essas alterações decorrem da imaturidade neuromuscular e de lesões ou dismaturação cerebral, especialmente em estruturas como cerebelo, substância branca e núcleos da base, que são vulneráveis em prematuros. 

 ⚙️ Fatores contribuintes:

  • Ausência ou atraso no aleitamento materno, que é um potente modulador da função oral. 
  • Uso prolongado de sondas, bicos artificiais e intubação, que interferem no padrão de sucção-deglutição-respiração. 
  • Hipotonia muscular e atraso no controle motor global, frequentes em prematuros de muito baixo peso. 
  • Estímulos sensoriais aversivos na cavidade oral durante a UTI, levando a respostas orais defensivas. 

O resultado é uma função oral desorganizada, que pode se manifestar como: dificuldades de sucção e coordenação da deglutição, retardo na introdução alimentar e recusas seletivas na alimentação, hipossensibilidade oral e falta de coordenação labial e lingual, bem como desenvolvimento de padrões compensatórios de mastigação e respiração.

 

Portanto, prematuridade é um fator de risco independente para alterações motoras e disfunções orais, com impacto clínico relevante no desenvolvimento global e na alimentação, exigindo acompanhamento multidisciplinar e intervenções precoces baseadas em evidências. Essas alterações repercutem em crescimento craniofacial assimétrico e risco aumentado de má oclusão, especialmente quando associadas ao uso prolongado de chupetas ou mamadeiras.

O odontopediatra tem papel crucial na intervenção precoce e no monitoramento do desenvolvimento oral de bebês prematuros.
 

Nosso foco deve ser:

  • Diagnóstico precoce e controle dos DDE, com registro fotográfico e acompanhamento periódico.
  • Educação parental intensiva, enfatizando higiene, dieta e controle de hábitos. 
  • Avaliação funcional da motricidade orofacial em parceria com fonoaudiólogos. 
  • Promoção do aleitamento materno e orientação sobre estímulos orais positivos. 

A abordagem deve ser transdisciplinar, envolve neonatologistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, garantindo que a cavidade oral se desenvolva como um espaço saudável e funcional e não como um reflexo das adversidades do início da vida.

Cada bebê prematuro carrega uma história de superação e cada atendimento odontopediátrico representa uma oportunidade de promover não apenas saúde bucal, mas também qualidade de vida.

Reconhecer as repercussões da prematuridade é o primeiro passo para um cuidado mais humano, científico e integral.

 

referências:

Bensi C, Costacurta M, Belli S, Paradiso D, Docimo R. Relationship between preterm birth and developmental defects of enamel: A systematic review and meta-analysis. Int J Paediatr Dent. 2020 Nov;30(6):676-686. doi: 10.1111/ipd.12646. 

Inder TE, Volpe JJ, Anderson PJ. Defining the Neurologic Consequences of Preterm Birth. N Engl J Med. 2023 Aug 3;389(5):441-453. doi: 10.1056/NEJMra2303347. 

 

 

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