A gengivite é uma condição inflamatória comum na infância (Tabela 1), frequentemente subestimada na prática clínica. Embora muitas vezes seja percebida como algo passageiro ou ligado apenas à fase de erupção dentária, seu manejo adequado desempenha um papel importante na prevenção de problemas periodontais futuros. Vamos revisar de forma clara e prática como reconhecer, orientar e tratar a gengivite em crianças, considerando a realidade do consultório odontopediátrico.
A gengivite caracteriza-se por inflamação superficial da gengiva, sem perda de inserção periodontal. Clinicamente, observamos gengiva avermelhada, edema e, principalmente, sangramento durante a escovação. Esse sinal é um dos melhores indicadores para orientar pais e responsáveis sobre a presença de inflamação. Muitas vezes, o sangramento é interpretado pelos pais como motivo para interromper a escovação, quando na verdade sabemos que ocorre o oposto: é exatamente o momento em que a higiene precisa ser reforçada!
Tabela 1: Panorama Epidemiológico da gengivite em crianças e adolescentes
| Aspecto Avaliado | Síntese dos Achados |
|---|---|
| Prevalência global | Alta variabilidade entre países (≈20% a >90%) |
| Faixa etária mais afetada | Adolescentes (maior resposta inflamatória na puberdade) |
| Diferenças regionais | Maiores taxas em países de baixa e média renda |
| Critérios diagnósticos utilizados | Sangramento gengival, Índice Gengival (Löe & Silness), SBI |
| Impacto social | Forte associação com fatores socioeconômicos |
A causa mais comum da gengivite infantil é o acúmulo de biofilme dental devido à técnica de escovação ineficaz ou à ausência de supervisão. É importante lembrar que, até aproximadamente 6 a 8 anos, a criança ainda não possui a coordenação motora necessária para realizar uma escovação eficiente sozinha. Portanto, a orientação principal é clara: escovação assistida é indispensável.
Além disso, a erupção dentária pode favorecer inflamações localizadas, especialmente na região dos molares permanentes recém irrompidos. Nessas situações, o tecido gengival pode apresentar aspecto mais volumoso e sensível, levando a criança a evitar a higiene por desconforto. Esse comportamento reforça ainda mais a importância da supervisão ativa.
Do ponto de vista microbiológico, a gengivite resulta de uma resposta inflamatória ao biofilme acumulado. Quando esse biofilme permanece por mais tempo, ele se organiza e amadurece, favorecendo a presença de bactérias associadas ao aumento da resposta inflamatória gengival.
Tabela 2: Fatores associados com a gengivite
| Categoria | Fatores Relacionados |
|---|---|
| Higiene Bucal | Higiene inadequada, ausência de supervisão |
| Ortodontia | Aparelhos fixos → maior retenção de biofilme |
| Fatores Hormonais | Puberdade → aumento da resposta inflamatória |
| Dieta | Alta frequência de açúcares |
| Socioeconômicos | Baixa renda, baixa escolaridade parental |
| Acesso a serviços | Menor acompanhamento preventivo |
O diagnóstico é clínico e deve incluir observação de cor, contorno , textura e sangramento à sondagem ou escovação. É importante descartar outras condições como hiperplasias medicamentosas, ulcerações traumáticas ou manifestações sistêmicas. (Figura 1)

Figura 1: Gengivite
O tratamento baseia-se em educação, remoção mecânica do biofilme e acompanhamento. No consultório, a profilaxia profissional e o reforço das técnicas são essenciais. Em casa, orientamos o uso de escova de cerdas macias, escovação assistida e fio dental diário em locais apropriados. Antissépticos podem ser indicados, mas sempre de forma criteriosa e por tempo limitado.
A comunicação com os pais é um ponto-chave. É fundamental explicar que sangramento não é sinal para parar, mas sim para caprichar! Uma frase eficaz para orientar: “Se sangrou, é porque precisa limpar melhor.” Mostrar visualmente a placa com corante evidenciador pode ser uma ferramenta poderosa.
Por fim, lembremos que prevenir gengivite é promover saúde bucal. Consultas regulares, educação continuada da família e abordagem acolhedora fazem toda a diferença no desfecho. (Tabela 3)
Tabela 3: Estratégias preventivas
| Nível de Intervenção | Estratégia |
|---|---|
| Individual | Escovação assistida até 8–9 anos |
| Familiar | Educação dos cuidadores |
| Escolar | Programas preventivos coletivos |
| Profissional | Acompanhamento periódico individualizado |
Assim, ao identificarmos e tratarmos precocemente a gengivite, contribuímos para o conforto da criança, a tranquilidade dos pais e a construção de hábitos que se manterão por toda a vida.
Abordagem clínica: sequência prática (fluxo curto)
- Educação + demonstração: mostrar biofilme com corante revelador, ferramenta altamente eficaz para motivar cuidadores e crianças.
- Escovação assistida: orientar que a criança até 7–8 anos necessita de supervisão/assistência; demonstrar técnica de escovação e uso de fio dental nas inter-proximais onde indicado.
- Profilaxia profissional: raspagem suave/profilaxia supragengival quando indicado; frequência individualizada (3–12 meses) conforme risco.
- Antissépticos: uso pontual e criterioso, avaliar riscos/benefícios e evitar uso prolongado em crianças pequenas. Mais indicado na adolescencia.
Ortodontia: intensificar higiene e profilaxia em pacientes com aparelho fixo; considerar protocolos com escova interdental/escovas especiais.
Referência:
Elgasmi FE, Maghous K, Badre B. Gingivitis in children and adolescents: epidemiological overview and associated factors-A narrative review. Front Oral Health. 2025 Oct 10;6:1675033. doi: 10.3389/froh.2025.1675033. PMID: 41140336; PMCID: PMC12549658.
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