O frênulo lingual é uma pequena estrutura de tecido conjuntivo com grande impacto funcional. Sua anatomia, inserção e elasticidade podem interferir diretamente no padrão de sucção, deglutição, respiração, mastigação e fala.

Para o odontopediatra, compreender a importância da avaliação fonoaudiológica do frênulo lingual é fundamental, especialmente nos primeiros meses de vida, quando a amamentação estabelece padrões motores orofaciais duradouros.

Enquanto a análise tradicional tende a focar na anatomia e possíveis repercussões estruturais futuras, o olhar fonoaudiológico integra estrutura, função e comportamento motor oral no momento presente.

A amamentação é um ato motor-oral complexo, coordenado pelo SNC, que envolve vedamento labial, elevação e abaixamento rítmico da língua, ondulação anteroposterior da língua (peristalse), compressão controlada do mamilo contra o palato, associados à coordenação da sucção–deglutição–respiração. Portanto, um mesmo frênulo, aparentemente semelhante na inspeção visual, pode ter impactos completamente diferentes na função, dependendo do tônus, coordenação motora e experiência alimentar do bebê.

 

O impacto direto de um frênulo restritivo na amamentação

Na visão fonoaudiológica, a alteração do frênulo compromete três pilares funcionais:

Pressão intraoral

Para extrair leite, o bebê precisa criar pressão negativa na cavidade oral, além de comprimir o mamilo contra o palato duro. Um frênulo encurtado ou espesso reduz a elevação da língua e o vedamento posterior, o que pode diminuir a pressão intraoral → mamada mais longa, exaustiva e com menor transferência de leite.

Movimento peristáltico da língua

A língua deve se mover em onda da região anterior para a posterior. Se o frênulo limita a protrusão e a elevação, o movimento se torna “picotado” ou parcial, podendo gerar sucção ineficaz e estalos sonoros característicos.

 

Coordenação motora e respiração

Restrição de mobilidade leva a compensações como retração de língua e uso excessivo de músculos periorais e mentonianos. Essas compensações podem aumentar o gasto energético e podem levar o bebê à fadiga precoce.

 

Assim, durante o aleitamento, o frênulo lingual com alteração de formato ou inserção pode gerar: sucção ineficaz (menor extração de leite), cansaço precoce durante a mamada, dor ou fissuras mamilares na mãe, cliques sonoros durante a sucção e escape de leite pela comissura labial. (Tabela 1)

Do ponto de vista fonoaudiológico, esses sinais não apenas alertam para uma possível anquiloglossia, mas também orientam a urgência da intervenção, que pode envolver terapia, acompanhamento e/ou procedimento cirúrgico.

 

Tabela 1: Sinais clínicos observados na amamentação

Sinal no bebê Significado funcional
Estalos Perda de vedamento e pressão intraoral
Escape de leite Incapacidade de manter sucção contínua
Mordida no mamilo Compensação por restrição de elevação lingual
Movimento excessivo de mandíbula Tentativa de compensar falta de mobilidade lingual
Intervalos curtos de sucção e pausas frequentes Fadiga e baixo fluxo de leite

No binômio mãe-bebê, há também sinais maternos, como dor, fissuras, bicos deformados após mamada, mastite recorrente.

 

Um ponto crucial: nem todo bebê com frênulo curto apresenta dificuldade de amamentação e nem toda dificuldade de amamentação está associada a um frênulo curto. Alguns possuem força, coordenação e elasticidade compensatória suficientes para manter função eficiente. Por isso, o diagnóstico precisa obrigatoriamente incluir observação funcional durante a mamada, evitando procedimentos desnecessários.

 

Portanto, o frênulo lingual deixou de ser apenas uma questão anatômica para se tornar uma decisão clínica baseada em evidência científica, avaliação funcional, impacto real na amamentação e falha de tratamento conservador.

A recomendação baseada em evidência propõe que a indicação cirúrgica ocorra apenas quando houver:

  • Restrição objetiva de mobilidade lingual

  • Evidência de prejuízo funcional durante a mamada

  • Falha de medidas conservadoras (orientação de pega, posicionamento, manejo miofuncional inicial)

Isso significa que a avaliação deve comprovar: Alteração na dinâmica da sucção nutritiva ( pressão intraoral inadequada, movimentos linguais restritos (especialmente elevação posterior) e estalos persistentes associados à perda de vedamento e Repercussão clínica mensurável (ganho ponderal insuficiente, mamada prolongada com fadiga e dor materna persistente documentada). A cirurgia NÃO deve ser baseada apenas em classificações anatômicas.

O consenso da força-tarefa brasileira da Academia Brasileira de Otorrinolaringlologia pediátrica (2026) aponta que:

  • A frenotomia apresenta evidência moderada para redução de dor materna a curto prazo.

  • A evidência para melhora sustentada da amamentação é variável e depende de critérios de indicação bem definidos.

  • Há risco de sobrediagnóstico e sobretratamento quando protocolos exclusivamente anatômicos são utilizados. Esse último ponto é extremamente relevante na prática odontopediátrica atual.

E reforça que a indicação cirúrgica deve ser criteriosa, individualizada e interdisciplinar. O odontopediatra que compreende as estratégias fonoaudiológicas de avaliação amplia sua capacidade diagnóstica e fortalece o vínculo com outros profissionais, garantindo resultados clínicos mais seguros e funcionais.

A pergunta deixou de ser:
“Esse frênulo é curto?”

E passou a ser:
“Esse frênulo está comprometendo a função de forma mensurável e refratária ao manejo adequado?”

Essa mudança de paradigma protege o bebê, a mãe e a prática clínica baseada em evidência.

Referência:

Caixeta JAS, Pazinatto DB, Padoin RCPK, Lubianca Neto JF, Avelino MAG, Chen VG, Vazzoler TMF, Castellano LT, Pirana S, Miura CS, Magalhães EJC, Pereira RG. Brazilian Academy of Paediatric Otorhinolaryngology Task Force – lingual frenulum disorders in childhood – evidence-based recommendations. Braz J Otorhinolaryngol. 2026 Jan 17;92(2):101762. doi: 10.1016/j.bjorl.2026.101762. Epub ahead of print. PMID: 41548508; PMCID: PMC12854977.

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