Ao longo da prática clínica em odontopediatria, somos constantemente desafiados a equilibrar eficácia preventiva, conforto do paciente e segurança dos materiais utilizados. A profilaxia profissional é um desses momentos-chave, em que a escolha da pasta profilática faz toda a diferença na experiência da criança, no resultado clínico e até mesmo na adesão ao tratamento. Nesta edição, vamos discutir os tipos de pastas profiláticas, suas indicações clínicas, critérios de seleção, além de mencionar algumas marcas comerciais disponíveis que podem auxiliar no dia a dia do consultório. Elas são distribuídas para uso profissional em consultórios, sendo aplicadas com escova rotatória ou taça de borracha durante procedimentos de profilaxia.

 

Finalidade da pasta profilática

A pasta profilática é utilizada com o objetivo de remover o biofilme e manchas extrínsecas dos dentes, facilitando a visualização clínica e melhorando a estética.

Em odontopediatria, devemos sempre lembrar que a profilaxia tem  função educativa e motivacional: a criança percebe a sensação de dentes limpos e lisos, e os pais visualizam os resultados, o que contribui para a valorização do atendimento.

 

As principais características dessas pastas incluem:

• Abrasividade: varia conforme o tipo e concentração do abrasivo, podendo impactar o esmalte e materiais restauradores. Pastas com abrasivos mais intensos podem aumentar a rugosidade superficial de restaurações.

• Presença de flúor: a maioria contém 1,23% de fluoreto (APF), mas a American Dental Association (ADA) afirma que não há benefício adicional na prevenção de cárie ao usar pastas profiláticas com flúor. ( já que se usa em sessão única, no consultório)

• Agentes dessensibilizantes: pastas contendo 15% de CSPS (NovaMin®), com ou sem flúor, demonstram redução significativa da hipersensibilidade dentinária após aplicação única, com efeito mantido por até 28 dias. (não temos no Brasil)

• Agentes bioativos: inclusão de fosfato de cálcio amorfo (ACP), caseína fosfopeptídeo-fosfato de cálcio amorfo (CPP-ACP), hidroxiapatita e arginina.

 

Estudos comparativos recentes mostram que a abrasividade das pastas profiláticas pode aumentar a rugosidade superficial do esmalte dental, reduzir sua microdureza e, em alguns casos, promover perda de estrutura mineral. O grau de abrasão depende do tipo e concentração do abrasivo utilizado, como sílica, carbonato de cálcio, argilas minerais ou carvão ativado.

Pastas com abrasivos mais intensos, como carvão ativado ou sílica de alta dureza, tendem a causar maior aumento de rugosidade e redução de microdureza do esmalte, além de maior perda de cálcio, especialmente quando não contêm flúor. Pastas com argilas minerais (como caulim ou Sparclay) mostraram impacto limitado na suavidade e polimento do esmalte, sem alterações significativas na microdureza ou cor, quando comparadas a pastas convencionais. Pastas com abrasivos tradicionais, como sílica hidratada ou carbonato de cálcio, promovem desgaste variável, mas geralmente dentro de limites considerados seguros para uso clínico, desde que respeitada a frequência e técnica de aplicação. Abrasivos de alta dureza, como pó de diamante, podem melhorar o brilho e a suavidade do esmalte, mas o efeito depende da formulação e da presença de outros abrasivos na pasta. 

Portanto, a escolha da pasta profilática deve considerar o equilíbrio entre eficácia de limpeza e potencial abrasivo, priorizando formulações com menor abrasividade para pacientes com risco de desgaste. 

 

Critérios de seleção em odontopediatria

Ao escolher a pasta profilática, considere:

  • Condição do esmalte: dentes hipomineralizados ou estruturalmente frágeis requerem baixa abrasividade.
  • Sensibilidade dentária: opte por pastas com agentes dessensibilizantes.
  • Finalidade da consulta: se o objetivo é preparar para aplicação tópica de flúor, a pasta pode ser neutra. Se não for suplementar com flúor tópico, utilize a pasta fluoretada.

Marcas comerciais disponíveis

No mercado brasileiro, algumas opções de pastas profiláticas amplamente utilizadas em odontopediatria. (Tabela 1)

 

Tabela 1: Pastas profiláticas disponíveis  no mercado

  • Marca Comercial Tipo Características Principais Vantagens Clínicas em Odontopediatria
    Pert-X® (FGM) Com e sem flúor Sílica hidratada; baixa abrasividade (RDA baixo); textura cremosa; sabores infantis Ideal para esmalte imaturo e HMI; menor risco de desgaste; boa aceitação infantil
    CleanJoy® (VOCO) Com flúor Disponível em diferentes níveis de abrasividade (baixa, média, alta); cores diferentes por RDA Permite personalizar conforme necessidade clínica; útil em manchas extrínsecas mais intensas
    Prophy Paste® (3M ESPE) Com flúor Baixa abrasividade; variedade de sabores; consistência homogênea Boa para manutenção periódica; conforto ao paciente
    Nupro® (Dentsply Sirona) Com flúor e com dessensibilizante Opções com nitrato de potássio; ampla linha de sabores e granulações Indicada para adolescentes com sensibilidade; versatilidade clínica
    Detartrine® (Septodont) Com e sem flúor Abrasividade moderada; consistência mais densa Boa remoção de manchas extrínsecas; custo-benefício interessante
    Maquira® Pasta Profilática Com flúor Abrasividade moderada; apresentação tradicional Opção acessível para uso geral em consultório
    Herjos® (Vigodent/Coltene) Com flúor Diferentes granulações; boa consistência Versátil para uso rotineiro; boa remoção de biofilme pigmentado

 

Vale sempre conferir a ficha técnica de cada produto, pois os níveis de abrasividade (RDA) variam consideravelmente entre marcas e versões.

A pasta profilática, embora pareça um detalhe simples, exige reflexão criteriosa em odontopediatria. Sua escolha impacta diretamente no conforto do paciente, na preservação da estrutura dental e na eficácia preventiva.

 

RECOMENDAÇÃO PRÁTICA:

  1. Prefira opções de baixa abrasividade, especialmente em dentes decíduos e permanentes jovens (ex: Pert-X®).
  2. Para pacientes com HMI ou hipersensibilidade: considerar pastas suaves ou com dessensibilizante (ex: Nupro® com nitrato de potássio).
  3. A pasta profilática fluoretada será útil apenas para casos em que não haverá aplicação tópica complementar.
  4. Para manchas extrínsecas mais intensas (ex: ferro, dieta pigmentada): optar por abrasividade moderada, com cautela.

A profilaxia deve ser encarada como uma oportunidade de educação em saúde, integrando pais e crianças no processo de valorização da higiene oral e da prevenção.

 

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